quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Encontro de Bento XVI com o mundo da cultura, em Paris


Partindo do monaquismo e da sua busca de Deus, Bento XVI, reconhecendo que os monges não queriam criar uma cultura nova nem conservar uma cultura do passado, afirma que o objectivo deles era muito simples: «no meio da confusão daqueles tempos, em que nada parecia resistir, os monges desejavam a coisa mais importante: dedicarem-se a encontrar aquilo que tem valor e permanece sempre, ou seja, encontrar a própria vida». O seu ser estava voltado para a «escatologia», não no sentido cronológico da palavra, mas no sentido existencial: aquilo que está por detrás do provisório, aquilo que é definitivo. E o caminho para lá chegarem era a Palavra, oferecida aos homens nos livros da Escritura. Por isso: «a busca de Deus requer, intrinsecamente, uma cultura da palavra… O desejo de Deus compreende o amor das letras, o amor da palavra, a sua exploração em todas as dimensões. Dado que na palavra bíblica, Deus está em caminho para nós e nós para Ele, os monges deviam aprender a penetrar os segredos da língua, a compreendê-la na sua estrutura e nos seus usos. Desta forma, por causa da busca de Deus, as ciências profanas, que nos indicam os caminhos para a língua, tornavam-se importantes. Por esta razão, a biblioteca e a escola faziam parte integrante do mosteiro. Estes dois locais abriam concretamente um caminho para a palavra. São Bento chamava ao mosteiro uma escola de serviço do Senhor. «A escola e a biblioteca asseguravam a formação da razão e a erudição, com base na qual o homem aprende a perceber no meio das palavras, a Palavra».
O papa convida, de seguida, a dar mais um passo suplementar: «A Palavra que abre o caminho da busca de Deus e que é, ela mesma esse caminho, é uma Palavra que faz nascer uma comunidade… A Palavra não nos conduz unicamente no caminho de uma mística individual. Introduz-nos na comunidade de todos aqueles que caminham na fé. Por isso é preciso reflectir, não apenas na Palavra, mas lê-la de maneira justa. Tal como na escola rabínica, entre os monges, a leitura realizada por um deles é igualmente um acto corporal. ‘A maior parte das vezes, quando o ler e a lectio são utilizadas sem especificação, designam uma actividade que, tal como o canto e a escrita, ocupa todo o corpo e todo o espírito’, diz Dom Leclercq.»
É preciso ainda dar outro passo. «A Palavra de Deus introduz-nos ela própria num diálogo com Ele. O Deus que fala na Bíblia ensina-nos como Lhe podemos falar. Sobretudo nos Salmos, dá-nos as palavras com que nos podemos dirigir a Ele. Neste diálogo, nós apresentamos-Lhe a nossa vida, com os seus altos e os seus baixos, e transformamo-la num movimento para Ele. Os Salmos contêm, em muitos locais, instruções sobre a maneira como devem ser cantados e acompanhados pelos instrumentos musicais. Para rezar com base na Palavra de Deus, não basta a simples labialização. A música é necessária. Dois cânticos da liturgia cristã derivam de textos bíblicos que os colocam nos lábios dos Anjos: o Glória, que é cantado uma primeira vez pelos Anjos no nascimento de Jesus, e o Sanctus que, segundo Isaías 6, é a aclamação dos Serafins, que estão na proximidade imediata de Deus. A esta luz, a Liturgia cristã é um convite a cantar com os anjos e a dar à palavra a sua mais alta função: - cantar, na oração comunitária, na presença de toda a corte celeste, e, assim, estar submetido à medida suprema: rezar e cantar para se unir à música dos espíritos sublimes, que eram considerados como os autores da harmonia do cosmos, da música das suas esferas.»
Cantar menos bem é cair na dissemelhança de Deus, num afastamento de Deus, onde o homem já não reflecte Deus, tornando-se dissemelhante da natureza divina de que é imagem, mas também dissemelhante da sua verdadeira natureza de homem. Para São Bento, a cultura da Palavra confiada ao homem tem como imperativo uma beleza real. «Desta exigência capital de falar de Deus e de O cantar com as palavras que Ele mesmo lhe deu, nasceu a grande música ocidental. Não era caso de criatividade pessoal, em que o indivíduo toma como critério essencial a representação do seu próprio eu, e se erige a ele próprio em monumento. Tratava-se mais bem de reconhecer atentamente, com ‘os ouvidos do coração’, as leis constitutivas da harmonia musical da criação, as formas essenciais da música emitida pelo Criador no mundo e no homem, e de inventar uma música digna de Deus que seja, ao mesmo tempo, autenticamente digna do homem e que proclame altamente esta dignidade.»
Ajudando a aprofundar nesta direcção de escuta da Palavra, Bento XVI recorda que «…a Bíblia não é um simples livro, mas uma recolha de textos literários cuja redacção se estende por mais de mil anos e em que os diferentes livros não são facilmente reconhecíveis como constituintes de um corpo unificado. Pelo contrário, há tensões visíveis entre eles. É o caso na Bíblia de Israel, que nós chamamos Antigo Testamento, e mais ainda quando nós os cristãos ligamos o Novo testamento e os seus escritos à Bíblia de Israel, interpretando-a como um caminho para Cristo. Com razão, no Novo Testamento, a Bíblia não é chamada de maneira habitual Escritura, mas ‘Escrituras’ que, todavia, serão consideradas, no seu conjunto, como a única Palavra de Deus que nos é dirigida. Este plural significa já claramente que a Palavra de Deus nos chega somente através da palavra humana, através de palavras humanas, isto é, que Deus nos fala somente na humanidade dos homens, e através das suas palavras e da sua história. Isto significa que o aspecto divino da Palavra e das palavras não é imediatamente perceptível. Dizendo-o de maneira moderna: a unidade dos livros bíblicos e o carácter divino das suas palavras não são perceptíveis desde um ponto de vista puramente histórico. O elemento histórico apresenta-se no múltiplo e no humano. O que explica que exista um díptico medieval que nos diz que a letra mostra os factos, mas que aquilo que se deve crer o mostra a alegoria, ou seja, o que é fruto da interpretação cristológica e pneumática.
Dizendo-o de uma maneira mais simples: a Escritura tem necessidade da interpretação, e precisa da comunidade em que se formou e em que é vivida. Nela tem a sua unidade e nela se desprende o sentido que unifica o todo. Dito ainda de outra maneira: existem dimensões do significado da Palavra e das palavras que se desvelam apenas na comunhão vivida desta Palavra que cria a história. Através da crescente percepção da pluralidade de sentidos, a Palavra não é desvalorizada, mas aparece, pelo contrário, em toda a sua grandeza e toda a sua dignidade». Por isso se afirma com razão que o Cristianismo não é uma religião do livro. «O cristianismo capta nas palavras a Palavra, o próprio Logos, que desvenda o seu mistério através de tal multiplicidade e da realidade de uma história humana. Esta estrutura especial da Bíblia é um desafio sempre novo para cada geração. Pela sua própria natureza, ela exclui tudo aquilo que hoje se chama fundamentalismo.
Bento XVI refere como o carácter crucial desta maneira de interpretar a Bíblia foi bem compreendido por São Paulo ao afirmar em 2 Cor 3, 6 : «a letra mata, mas o Espírito dá a vida» e que «lá onde está o Espírito… está a liberdade» (3, 17). Mas este Espírito que torna livre não se deixa reduzir à ideia ou à visão pessoal daquele que interpreta. O Espírito é Cristo, e Cristo é o Senhor que nos mostra o caminho. O que impede as derivas subjectivistas e o fanatismo fundamentalista. «Seria fatal se a cultura europeia de hoje compreendesse a liberdade como ausência total de vínculos, assim favorecendo, inevitavelmente, o fanatismo e a arbitrariedade. A falta de vínculos e a arbitrariedade não são a liberdade, mas a sua destruição».
A reflexão seria incompleta se se ativesse à Palavra, ao «Ora». A segunda componente do monaquismo é o «Labora». Diferentemente do mundo grego, que desprezava o trabalho manual, considerando-o como obra dos escravos, quer os rabinos, quer Paulo, mostraram bem a dignidade do trabalho, sendo Paulo um fabricante de tendas. Se o mundo greco-romano não conhecia um Deus criador, sendo o trabalho confiado ao demiurgo, «o Deus da Bíblia é muito diferente: Ele, o Uno, o Deus vivo e verdadeiro, é ao mesmo tempo o Criador. Deus trabalha, e continua a operar na e sobre a história dos homens. E em Cristo, Ele entra como Pessoa no trabalho fatigante da história… O Trabalho dos homens aparece como uma expressão particular da sua semelhança com Deus que torna o homem participante da obra criadora de Deus no mundo. Sem esta cultura do trabalho que, com a cultura da palavra, constitui o monaquismo, o desenvolvimento da Europa, o seu ethos e a sua formação do mundo são impensáveis. A originalidade deste ethos deveria doravante fazer compreender que o trabalho e a determinação da história pelo homem são uma colaboração com o Criador, que têm n’Ele a sua medida. Lá onde esta medida falta e lá onde o homem se converte a ele mesmo em criador deiforme, a transformação do mundo pode facilmente chegar à sua destruição».
A atitude dos monges, orientados pela Palavra, era uma verdadeira atitude filosófica: olhar para além das realidades penúltimas e procurar as realidades últimas, as verdadeiras. A direcção a seguir era a palavra da Bíblia, na qual escutavam Deus, devendo esforçar-se por O compreender para poder chegar até Ele. «O anúncio da Palavra é necessário. Ela dirige-se ao homem e forja nele uma convicção que se pode tornar vida. E para que se possa abrir um caminho no coração da palavra bíblica enquanto Palavra de Deus, esta mesma Palavra deve ser anunciada abertamente» para poder dar razão da sua fé: «Deveis sempre estar preparados para vos explicardes diante de todos aqueles que vos pedem que deis conta (logos) da esperança que existe em vós 2 Ped 3, 15. (O Logos, a razão da esperança, deve fazer-se apo-logia, deve chegar a ser resposta). De facto, os missionários da igreja nascente não consideravam o seu anúncio missionário como uma propaganda que devesse servir para aumentar a importância do seu grupo, mas como uma necessidade intrínseca que derivava da natureza da sua fé. O Deus em que acreditavam era o Deus de todos, o Deus Uno e Verdadeiro que se tinha mostrado na história de Israel e finalmente em seu Filho, dando assim a resposta que tinha em conta a todos e que, no seu íntimo, todos os homens esperam. A universalidade de Deus e a universalidade da razão aberta a Ele constituíam para eles a motivação e, ao mesmo tempo, o dever de anunciar. Para eles, a fé não dependia dos hábitos culturais, que são diferentes segundo os povos, mas do âmbito da verdade que tem igualmente em conta a todos.»
Quando Paulo prega no Areópago, um tribunal competente em matéria de religião e que devia opor-se à intrusão de religiões estrangeiras, ele é acusado precisamente por pregar divindades desconhecidas e estrangeiras ( Act 17, 18). A tal acusação replica Paulo: «Eu encontrei um altar com esta inscrição: ‘Ao deus desconhecido’. Ora, aquilo que vós venerais sem o conhecer é o que eu venho anunciar-vos (cf. A7, 23). Paulo não anuncia deuses desconhecidos. Ele anuncia Aquele que os homens ignoram e todavia conhecem: o Ignoto-Conhecido. É Aquele que eles procuram e do qual, no fundo, têm conhecimento e que é, todavia, o Ignoto e o Incognoscível. No mais profundo do pensamento e do sentimento humano, sabe-se, de certo modo, que Ele tem que existir. Que na origem de todas as coisas deve estar, não a irracionalidade, mas a Razão criadora; não o cego destino, mas a liberdade. Todavia, embora todos os homens o saibam de alguma maneira, este conhecimento permanece ambíguo: um deus só pensado e elaborado pelo espírito humano não é o verdadeiro Deus. Se Ele não se revela, nós não chegamos até Ele. A novidade do anúncio cristão é a possibilidade dizer agora a todos os povos: Ele revelou-se. Ele, pessoalmente. A novidade do anúncio cristão não consiste num pensamento, mas num facto: Ele revelou-se. Isto não é um facto cego, mas um facto que, em si mesmo, é Logos – presença da Razão eterna na nossa carne. Verbum caro factum est (Jn 1, 14): é assim verdadeiramente na realidade: o Logos está presente no meio de nós. É um facto racional. Todavia, a humildade da razão é sempre necessária para o poder acolher. É necessária a humildade do homem para responder à humildade de Deus».
A brilhante alocução de Bento XVI termina afirmando que a situação presente da humanidade tem muitos aspectos análogos aos do Areópago. E se não há cidades cheias de imagens de deuses, há o facto incontestável de que «Deus se tornou verdadeiramente o grande desconhecido. E apesar de tudo, como outrora, em que por detrás de numerosas representações de deuses, estava escondida e presente a questão do Deus desconhecido, também hoje, a actual ausência de Deus está também tacitamente inquieta pela pergunta sobre Ele. Procurar Deus e deixar-se encontrar por Ele, não é hoje menos necessário que no passado. Uma cultura puramente positivista, que circunscrevesse ao campo subjectivo, como não científica, a pergunta sobre Deus, seria a capitulação da razão, a renúncia às suas possibilidades mais elevadas e, portanto, um fracasso do humanismo cujas consequências só podem ser muito graves. Aquilo que fundou a cultura da Europa, a procura de Deus e a disponibilidade para O escutar, permanece, ainda hoje, o fundamento de toda a verdadeira cultura.»

Carlos Nuno Vaz

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Pagamento do Reino é igual para todos



Comentário do Padre Raniero Cantalamessa, OFM Cap., Pregador da Casa Pontifícia, sobre a Liturgia da Palavra deste domingo.

XXV Domingo do Tempo Comum: Isaías 55, 6-9; Filipenses 1, 20c-27a; Mateus 20, 1-16a


“Ide vós também para a minha vinha”

A parábola dos trabalhadores enviados à vinha em horas diferentes do dia sempre gerou grande dificuldade aos leitores do Evangelho. É aceitável a maneira de actuar do dono, que dá o mesmo pagamento para quem trabalhou uma hora e para quem trabalhou uma jornada inteira? Ele não viola o princípio da justa recompensa? Os sindicatos hoje se rebelariam contra quem comportasse como esse patrão.A dificuldade nasce de um equívoco. Considera-se o problema da recompensa em abstracto e em geral, ou em referência à recompensa eterna no céu. Visto assim, realmente haveria uma contradição com o princípio segundo o qual Deus "dá para cada um segundo suas obras" (Rm 2, 6). Mas Jesus se refere aqui a uma situação concreta, a um caso bem preciso: o único denário que é dado a todos é o Reino dos Céus que Jesus trouxe à terra; é a possibilidade de entrar para fazer parte da salvação messiânica. A parábola começa dizendo: "O Reino dos céus é como a história do patrão que saiu de madrugada...".O problema é, mais uma vez, o da postura dos judeus e dos pagãos, ou dos justos e dos pecadores, frente à salvação anunciada por Jesus. Ainda que os pagãos (respectivamente, os pecadores, os publicanos, as prostitutas, etc.) só diante da pregação de Jesus se decidiram por Deus, enquanto antes estavam afastados ("ociosos"), não por isso ocuparão no Reino um lugar diferente e inferior. Eles também se sentarão à mesma mesa e gozarão da plenitude dos bens messiânicos. E mais, como eles se mostraram mais dispostos a acolher o Evangelho que os chamados "justos", realiza-se o que Jesus diz para concluir a parábola de hoje: "os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos".Uma vez conhecido o Reino, ou seja, uma vez abraçada a fé, então sim há lugar para a diversificação. Então já não é idêntico o destino de quem serve Deus durante toda a vida, fazendo render ao máximo seus talentos, com relação a quem dá a Deus só as sobras de sua vida, com uma confissão remediada, de alguma forma, no último momento.A parábola contém também um ensinamento de ordem espiritual da máxima importância: Deus chama todos e chama em todas as horas. O problema, em suma, é o chamado, e não tanto a recompensa. Esta é a forma com que nossa parábola foi utilizada na exortação de João Paulo II sobre a "vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo" (Christifideles laici): "Os fiéis leigos pertencem àquele Povo de Deus que é representado na imagem dos trabalhadores da vinha (...). Ide vós também. A chamada não diz respeito apenas aos Pastores, aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos: também os fiéis leigos são pessoalmente chamados pelo Senhor" (n. 1-2).Quero chamar a atenção sobre um aspecto que talvez seja marginal na parábola, mas que é muito vivo na sociedade moderna: o problema do desemprego. À pergunta do proprietário: "Por que estais aí o dia inteiro desocupados?", os trabalhadores respondem: "Porque ninguém nos contratou". Esta resposta poderia ser dada hoje por milhões de desempregados.Jesus não era insensível a este problema. Se Ele descreve tão bem a cena é porque muitas vezes seu olhar havia pousado compassivamente sobre aqueles grupos de homens sentados no chão, ou apoiados em uma porta, com um pé na parede, à espera de serem contratados. Esse proprietário sabe que os operários da última hora têm as mesmas necessidades que os outros; também eles têm filhos para alimentar, como os da primeira hora. Dando a todos o mesmo pagamento, o proprietário mostra levar em conta não só o mérito, mas também a necessidade.
As nossas sociedades capitalistas baseiam a recompensa unicamente no mérito (com frequência mais nominal que real) e no tempo de serviço, e não nas necessidades da pessoa. No momento em que um jovem operário ou um profissional tem mais necessidade de ganhar para construir uma casa e uma família, seu pagamento é o mais baixo, enquanto que no final da carreira, quando já se tem menos necessidade, a recompensa (especialmente em certas categorias sociais) chega às nuvens. A parábola dos operários da vinha nos convida a encontrar um equilíbrio mais justo entre as duas exigências, do mérito e da necessidade.
[Helena Gonçalves]

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Moral racional e moral religiosa

Guido Renei, c. 1624, Moisés e as Tábuas da Lei

Em vez de “moral”, poderia ter escrito “ética”, dado que, no que se segue, usarei os dois termos como sinónimos. O termo “ética” vem do grego e foi criado por Aristóteles, enquanto “moral” provém do latim, tendo sido criado por Cícero para traduzir o termo “ética” – o que já nos sugere o papel criador que os latinos tiveram nesta área da filosofia, ao contrário do que aconteceu, dum modo geral, nos outros domínios filosóficos, onde pouco mais foram que tradutores[1] “colonizados” pela sua colónia helénica.
As questões suscitadas pelo confronto entre éticas laicas ou racionais e éticas religiosas têm sido bastante debatidas nos últimos decénios. Marciano Vidal, o moralista espanhol mais em evidência na actualidade, no artigo em que deu a conhecer a sua mais recente obra, a Nueva Moral Fundamental. El lugar teológico de la Ética, exprime a opinião de que os debates “entre la ‘ética de la fé’ y la ‘moral de la autonomía teónoma’” são “un camino ya totalmente recorrido; permanecer en él nos mantendría en inútiles polémicas y nos conduciría a escasos resultados”[2]. Talvez essa opinião corresponda à realidade espanhola; para os leitores portugueses não penso que seja inútil apresentar aqui o consenso bastante alargado a que esses debates conduziram.
O ponto de partida é um dado de facto: a existência de morias elaboradas por diversos pensadores e de morais propostas pelas várias religiões. Todos os grandes filósofos se ocuparam com a dimensão ética da vida humana e todas as religiões têm uma componente moral, um sistema de regras de conduta, mais ou menos claramente relacionado com a componente doutrinal. Em todas elas o “indicativo” dogmático fundamenta “imperativos” morais.
Noto, de passagem, que se compararmos essas morais de inspiração religiosa com as morais filosóficas elaboradas por diversos autores e veiculadas por escolas e correntes, verificamos que foram as morais religiosas que maior influência tiveram na vida dos homens e das sociedades. O que dá que pensar e importa ter em conta.
Nas religiões que se pretendem originadas numa revelação, nomeadamente as três grandes religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – muitas prescrições morais são mesmo atribuídas à divindade. E a partir dessas normas morais de pretendida origem divina – as “morais religiosas” em sentido estrito – foram-se elaborando as morais religiosas em sentido amplo, as quais englobam – com diverso grau de autoridade – quer as normas atribuídas directamente à divindade quer as que resultam de elaboração humana a partir daquelas[3]. Tal acontece de modo particularmente claro no âmbito das confissões cristãs e, muito claramente, no campo católico, com a chamada teologia moral ou moral teológica.
Na medida em que a ética religiosa atribui a sua primeira origem à divindade, parece implicar uma certa heteronomia: não provindo a lei do homem, mas de outrem, vem de “fora” dele. Nessa mesma medida, uma ética religiosa parece incompatível com uma ética secular, “humana”. Muitos assim pensam e, consequentemente, julgam que a relação entre ética religiosa e ética secular se põe em termos de alternativa: ou uma ou outra.
Na realidade não é assim, se se tiver em conta uma correcta concepção acerca de Deus e das relações entre as criaturas e o Criador. O Criador é certamente “outro”, diferente – e tanto! – da criatura, do ser humano. É-lhe transcendente. Mas, precisamente porque é Criador, não lhe é “exterior”, mas antes radicalmente imanente – “mais interior a mim mesmo do que o meu próprio íntimo”, dirá S. Agostinho: intimior intimo meo. Fonte e origem do ser da criatura, Deus não se lhe pode considerar “exterior” e, portanto, “rival”. Por esta razão, a sua “lei” não é heterónoma[4] relativamente ao homem, não se lhe contrapõe como outra lei do mesmo nível, mas antes, porque “teónoma”, transcende-a. Por esse mesmo motivo, a lei do homem deve dizer-se verdadeira, embora subordinadamente, “autónoma”, verdadeira lei do homem. É isto que a tradicional doutrina escolástica pretende exprimir ao dizer que a lei moral natural é a “participação formal da lei divina na criatura racional”[5].
A existência de uma moral “religiosas” – quer, no sentido estrito, limitada às normas de que a própria divindade teria sido directamente autora, quer no sentido mais amplo acima rferido – não invalida, por conseguinte, a existência de uma moral “racional” ou simplesmente “humana”, moral que prescinde de qualquer fundamentação revelada e até de uma explícita fundamentação teísta, uma moral autónoma, portanto. Muito pelo contrário: qualquer moral religiosa pressupõe, como indispensável condição de possibilidade, a moral “humana” ou “natural”. Sem poder descer aqui a grandes desenvolvimentos, limito-me de momento a observar o seguinte: mesmo uma ordem directamente recebida de Deus só se apresentará como vinculativa para quem perceba que deve obedecer-lhe; ora percebê-lo é, no fundo, perceber que isso é que é bem e o contrário mal; por outras palavras, é ter o sentido moral, considerar que “o bem é a fazer e o mal a evitar”, formulação que condensa a exigência ética básica e global.
A teonomia da moral religiosa não suprime, pois, a autonomia da moral humana[6]. Afirmar que a moral encontra no Absoluto, em Deus, o seu último fundamento[7] não compromete a autonomia racional da moral. Por outras palavras: a questão “ética religiosa/ética secular” não se põe em termos de alternativa, ou uma ou outra, mas, se bem entendida, afirma a compatibilidade de ambas: ética religiosa e ética secular.
Mais ainda: a teologia moral tem muito de elaboração racional, pois que, também no campo moral, a teologia é, como a definiu magistralmente S. Anselmo, fides quaerens intellectum, a actividade do crente em busca da inteligibilidade da sua fé. “Relativamente à teologia moral, a ética(como filosofia natural) não se situa simplesmente antes dela ou ao seu lado, actua-se antes no interior dela mesma”(J. Fuchs)[8]
O que certamente não parece admissível é uma ética que, de um modo ou de outro, não reconheça carácter absoluto ao valor moral e, nesse sentido – mas só nesse sentido - , que ele tenha algo de “religioso”. (continua)

Roque Cabral S.J., Brotéria vol.166(Fevereiro 2008)
[1] Constitui significativa excepção, além da área da ética, a do direito, intimamente a ela ligado.
[2] MARCIANO VIDAL, “Porqué he escrito una ‘Nueva Moral Fundamental”, Moralia XXIII, 2000, 513-526. A passagem citada encontra-se na p. 516.
[3] Não é fácil saber como determinada religião chegou a promover a sua moral particular, com o seu preciso sistema normativo: surgiu este directamente do apelo divino? Ou procede só da reflexão racional de uma dada sociedade, da “razão legisladora” do homem (Kant)?
[4] Um crente cristão esclarecido, em vez de dizer que Deus “manda”, considerará mais exacto dizer que Deus “funda” os mandamentos, está na origem da exigência de sentido e de coerência que habita toda a busca moral. O homem foi capaz de perceber na revelação um apelo a moralizar-se porque se percebeu a si msmo como um ser ético que procura humanizar-se. Cf. X. THÉVENOT, “Étique Chrétienne”, em Paul POUPARD, Dictionnaire des Religions, PUF, 536-538.
[5] Desenvolvi esta temática no artigo “Lei ou Legislador?”, publicado na Revista Portuguesa de Filosofia LII(1996)179-184. Aí mostro que, em diferentes sentidos, deve dizer-se que a pessoa humana é súbdito da lei moral e seu legislador, embora subordinado.
[6] Esta é a razão pela qual qualquer Extrinsecismo ético é insustentável, porque baseado numa petição de princípio.
[7] Notar o seguinte: dizer que a moral se fundamenta ontologicamente em Deus não é dizer que ela requer o conhecimento explícito dessa fundamentação e, portanto, de Deus(B. SCHÜLLER, “Sittliche Forderung und Erkenntnis Gottes”, in Gregorianum 59(78) 5-37.
[8] J. FUCHS, Esiste una morale cristiana? Questioni critiche in un tempo di secolarizzazione, Herder, Morcelliana, Roma e Brescia, 1970
[Silva Pereira]

sábado, 13 de setembro de 2008

Meditação de Bento XVI na conclusão da vigília mariana realizada hoje em Lourdes [extractos]

[...] La procession aux flambeaux, traduit à nos yeux de chair, le mystère de la prière : dans la communion de l'Église, qui unit élus du ciel et pèlerins de la terre, la lumière jaillit du dialogue entre l'homme et son Seigneur et une route lumineuse s'ouvre dans l'histoire des hommes, y compris dans ses moments les plus obscurs. Cette procession est un moment de grande joie ecclésiale, mais aussi un temps de gravité : les intentions que nous apportons soulignent notre profonde communion avec tous les êtres qui souffrent. Nous pensons aux victimes innocentes qui subissent la violence, la guerre, le terrorisme, la famine, des injustices, des fléaux et des calamités, la haine et des oppressions, des atteintes à leur dignité humaine et à leurs droits fondamentaux, à leur liberté d'agir et de penser ; nous pensons aussi à ceux qui connaissent des problèmes familiaux, ou qui éprouvent une souffrance face au chômage, à la maladie, à l'infirmité, à la solitude, à leur situation d'immigrés. Je désire ne pas oublier ceux qui souffrent à cause du nom du Christ et qui meurent pour Lui.

Marie nous apprend à prier, à faire de notre prière un acte d'amour pour Dieu et de charité fraternelle. En priant avec Marie, notre cœur accueille ceux qui souffrent. Comment notre vie ne peut-elle pas ensuite en être transformée ? Pourquoi notre être et notre vie tout entière ne deviendraient-ils pas des lieux d'hospitalité pour nos prochains ? Lourdes est un lieu de lumière parce que c'est un lieu de communion, d'espérance et de conversion.

À la tombée de cette nuit, Jésus nous dit : « Gardez vos lampes allumées » (Lc 12, 35) ; lampe de la foi, lampe de la prière, lampe de l'espérance et de l'amour ! Cet acte de marcher dans la nuit, en portant la lumière, parle fort au plus intime de nous-mêmes, touche notre cœur et dit bien plus que tout autre parole prononcée ou entendue. Ce geste résume à lui seul notre condition de chrétiens en chemin : à la fois, nous avons besoin de lumière et nous sommes appelés à devenir lumière. Le péché nous rend aveugles, il nous empêche de nous proposer comme guides pour nos frères, et il nous amène à nous méfier d'eux pour nous laisser conduire. Nous avons besoin d'être éclairés et nous répétons la supplication de l'aveugle Bartimée : « Maître, fais que je voie ! » (Mc 10, 51). Fais que je voie mon péché qui m'entrave, mais surtout, Seigneur, fais que je voie ta gloire ! Nous le savons : notre prière a déjà été exaucée et nous rendons grâce car, comme le dit saint Paul dans sa Lettre aux Éphésiens : « le Christ t’illuminera » (Ep 5, 14), et saint Pierre ajoute : « il vous a appelés des ténèbres à son admirable lumière » (1 P 2, 9).

À nous qui ne sommes pas la lumière, le Christ peut désormais dire : « Vous êtes la lumière du monde » (Mt 5, 14), nous confiant le soin de faire resplendir la lumière de la charité. Comme l'écrit l'Apôtre saint Jean : « Celui qui aime son frère demeure dans la lumière et il n'y a en lui aucune occasion de chute » (1 Jn 2, 10). Vivre l'amour chrétien, c'est tout à la fois faire entrer la lumière de Dieu dans le monde et en indiquer la véritable source. Saint Léon le Grand l'écrit : « Quiconque, en effet, vit pieusement et chastement dans l'Église, qui songe aux choses d'en haut, non à celles de la terre (cf. Col 3, 2), est d'une certaine façon semblable à la lumière céleste ; tant qu'il observe lui-même l'éclat d'une sainte vie, il montre à beaucoup, comme une étoile, la voie qui mène à Dieu » (Sermon III, 5).

En ce sanctuaire de Lourdes vers lequel les chrétiens du monde entier ont les yeux tournés depuis que la Vierge Marie y a fait briller l'espérance et l'amour en donnant aux malades, aux pauvres et aux petits la première place, nous sommes invités à découvrir la simplicité de notre vocation : il suffit d'aimer.

Demain la célébration de l'exaltation de la Sainte Croix nous fera entrer précisément au cœur de ce mystère. En cette veillée, notre regard se tourne déjà vers le signe de l'Alliance nouvelle où toute la vie de Jésus converge. La Croix constitue le suprême et parfait acte d’amour de Jésus qui donne sa vie pour ses amis. « Ainsi faut-il que le Fils de l'homme soit élevé, afin que tout homme qui croit obtienne par lui la vie éternelle » (Jn 3, 14-15).

Annoncée dans les Chants du Serviteur de Dieu, la mort de Jésus est une mort qui devient lumière pour les peuples ; c'est une mort qui, en lien avec la liturgie d'expiation, apporte la réconciliation, mort qui marque la fin de la mort. Dès lors, la Croix est signe d'espérance, l'étendard de la victoire de Jésus « car Dieu a tant aimé le monde qu’il a donné son Fils unique : ainsi tout homme qui croit en lui ne périra pas, mais il obtiendra la vie éternelle » (Jn 3, 16). Par la Croix, notre vie tout entière reçoit lumière, force et espérance. Par elle, est révélée toute la profondeur de l'amour contenu dans le dessein originel du Créateur ; par elle, tout est guéri et porté à son accomplissement. C'est pourquoi la vie dans la foi au Christ mort et ressuscité devient lumière.

Les apparitions étaient entourées de lumière et Dieu a voulu allumer dans le regard de Bernadette une flamme qui a converti d'innombrables cœurs. Combien de personnes viennent ici pour voir, espérant peut-être secrètement bénéficier de quelque miracle ; puis, sur la route du retour, ayant fait une expérience spirituelle d'une vie en Église, elles changent leur regard sur Dieu, sur les autres et sur elles-mêmes. Une petite flamme nommée espérance, compassion, tendresse les habite. La rencontre discrète avec Bernadette et la Vierge Marie peut changer une vie, car elles sont présentes, en ce lieu de Massabielle, pour nous conduire au Christ qui est notre vie, notre force et notre lumière. Que la Vierge Marie et sainte Bernadette vous aident à vivre en enfants de lumière pour témoigner, chaque jour de votre vie, que le Christ est notre lumière, notre espérance et notre vie !

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Correcção fraterna

Prolongando os ecos do evangelho do 23º Domingo, partilho estas reflexões de Atilano Alaiz, em «El Don de la Palabra – Ciclo A», pp. 222 – 223:
«Somos responsáveis dos outros diante de Deus. Esta responsabilidade leva consigo a exigência de ajuda em duas direcções: corrigindo e animando. Tão importante ou mais que corrigir é animar o grupo, a comunidade, a família… O irmão necessita da nossa aprovação, da nossa palmada no ombro. Não se trata de adular, mas de estimular.
O membro da família ou da comunidade necessita que lhe reconheçamos os seus carismas, que lhe agradeçamos os seus serviços e o testemunho da sua generosidade; que o confirmemos nos seus esforços, que o alentemos nas suas dificuldades, que valorizemos a sua pessoa e o seu actuar.
A correcção fraterna é uma instância da caridade pessoal e do crescimento comunitário. É uma palavra que o Espírito põe nos nossos lábios para que sejamos mediadores de salvação. Converte-se em palavra de perdição quando degenera em murmuração…..
Que dizer da correcção entre familiares e amigos? Não é certo que, na sociedade, desgraçadamente, muitos adulam por diante e criticam por detrás? Próprio do cristão é ter coragem para corrigir fraternalmente por diante, e elogiar por detrás.
Afirma o bispo Casaldáliga: «Feliz aquele que sabe que seguir a Jesus é viver em comunidade, sempre unido ao Pai e aos irmãos. Não te enganes: quem se afasta da comunidade em busca de vantagens pessoais, afasta-se de Deus; quem procura a comunidade, encontra o Senhor».

Carlos Nuno Vaz

domingo, 7 de setembro de 2008

Um novo encontro Fé - Arte



PÚBLICO - São João Damasceno dizia: "Se encontrares um pagão, leva-o a uma igreja ornamentada para ver os ícones, a pintura, para mostrar a fé". Hoje já não se pode fazer isto?
GIANFRANCO RAVASI - Pode fazer-se ainda, apenas na base do passado. O grande património da tradição artística ocidental é expressão, sobretudo, da fé e da Bíblia. No coração das cidades de Portugal está sempre a catedral e museus feitos com obras e peças de temas religiosos. Foi na questão do presente que eu quis começar a intervir. Não tanto para adoptar formas artísticas de artesanato, que têm a sua dignidade, e construir uma nova linguagem sobre essas artes menores. Quero que a grande arte e os grandes artistas, nomes fundamentais da arte contemporânea que não se interessam por temas religiosos, voltem de novo a olhar para lá da fronteira. Será um benefício para nós, mas também para eles, porque perderam grandes temas, grandes símbolos, grandes narrativas. Não se preocupam senão com interpretar o real, tantas vezes esgotado ou, pelo menos, ligado sobretudo à exterioridade ou à ausência das grandes perguntas.
E uma realidade feia, por vezes?
Sim, por vezes, com a violência, a ruptura ou mesmo a pura materialidade e o realismo. Por isso será também um serviço que lhes faremos.
Mas há muita gente na Igreja que vê a arte contemporânea como algo estranho, feio, escandaloso, mesmo obsceno...
É verdade. Precisamente por isso, é necessário começar uma viagem, que será longa, para tentar tecer de novo o diálogo, depois do divórcio que houve com os artistas. Mas também para fazer compreender ao fiel que entra numa igreja a necessidade de uma nova linguagem, que não é apenas a do artesanato, de pinturas modestas de artistas locais, mas que é também a tentativa de fazer alguma coisa que fique na história.
Isto acontece já na arquitectura, com igrejas feitas por grandes arquitectos - algumas mesmo belas igrejas. Inicialmente, os fiéis têm perante elas alguma estranheza, mas depois, progressivamente, entram e percebem a beleza de uma igreja feita por Álvaro Siza, Richard Meier, Mario Botta, Renzo Piano, Tadao Ando.
Falta a música, a pintura...
Sim, faltam as artes, a escultura, um pouco a literatura...
A experimentação na arte contemporânea não é, então, estranha?
Não. Fazer obras para o culto obriga a ter em conta o contexto. Começaremos com obras não necessariamente já litúrgicas, mas que sejam obras espirituais.
De reflexão humana?
Sim, sobre os grandes símbolos e grandes temas. Penso escolher, com uma comissão criada para o efeito, artistas que tenham já alguma sensibilidade. Alguns nomes em que penso: Bill Viola, dos Estados Unidos, Anish Kapoor, da Índia, Cunnellis, da Europa, artistas de grande nível e que têm já dentro de si o desejo de interrogar-se, mas que não afrontaram ainda temas estritamente religiosos.

Excerto da entrevista de António Marujo a D.Gianfranco Ravasi (Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura) Público 04.09.2008 (caderno P2)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008


Wilfried Schwabe, 2007

« Cristo não é, primeiramente, o mediador entre os homens e Deus. Cristo é, primeiramente, o mediador entre cada eu consigo mesmo, permitindo a cada eu ser um eu. Esta não é uma relação abstracta, redutível a uma conceptualização formal. Há, já o dissemos, uma existência fenomenológica, uma carne. Se é a ipseidade originária do Arqui-Filho que edifica o eu, unindo o eu consigo mesmo, esta relação unificadora é também o alimento que apascenta as ovelhas, as nutre e lhes assegura o crescimento, porque o eu unificado consigo acresce-se e engrandece-se. Este acréscimo em qualquer possível eu, esta auto-afecção que toca o eu em toda a extensão do seu ser é o corpo, a carne fenomenológica, o corpo vivo. Sou-me dado a mim mesmo, neste corpo vivo e assim sou um eu, sou o meu eu. Mas, não sou eu que me dou a mim, não sou eu que me unifico. Eu não sou a porta que me abre a mim mesmo. Eu não sou a erva que me alimenta e me faz crescer. No meu corpo sou-me dado, mas eu não me dou o meu corpo. A minha carne, o meu corpo vivo é o de Cristo. É o que diz Aquele que João cita: «Eu sou a porta: aquele que entrar por mim… entrará e sairá e encontrará pastagens» (Jo 10, 9)".

Michel Henry, Eu sou a verdade, Ed. Vega, 1998, 120-121.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Conta-se que…



Um Ancião recebeu, certa vez, a visita de alguns amigos:

- Gostaríamos muito que nos ensinasses aquilo que aprendeste todos estes anos – disse um deles.

- Estou velho – respondeu o Homem.

- O que conversas com Deus? Quais são as coisas importantes que devemos pedir?

O homem sorriu.

- No começo, eu tinha o fervor da juventude, que acredita no impossível. Então eu pedi que me desse forças para mudar a humanidade. Aos poucos, vi que era uma tarefa para além das minhas forças. Então comecei a pedir forças para mudar o que estava à minha volta.

- Neste caso, podemos garantir que parte do teu desejo foi atendido – disse um dos amigos – o teu exemplo serviu para ajudar muita gente.

- Ajudei muita gente com o meu exemplo; mesmo assim sabia que não era o pedido.Só agora, no final da minha vida, é que entendi o pedido que devia ter feito logo desde o início.

- E qual é esse pedido?

- Que eu fosse capaz de me mudar a mim mesmo.


[Maria Helena Gonçalves]

Para Te servir

Sendo este o Ano Jubilar Paulino, é natural ter presente o Apóstolo dos povos: o seu ardor, a sua incansável peregrinação missionária, a sua pregação aos gentios (oportuna e inoportunamente), a sua ousadia e destemor…
A propósito, veio-me à lembrança um poema que escrevi, há mais de uma dezena de anos, num momento de enorme ardor apostólico. Ouso partilhá-lo hoje convosco. Julgo que ele diz bem o ardor que já nos possuiu, a todos nós, em algum momento. E ainda possui! Por isso cá estamos… Uma chama destas não se extingue facilmente! Mas… como todas as chamas sujeitas aos efeitos das “intempéries”, sofre oscilações na sua intensidade… De vez em quando, precisa de ser espevitada…


Para Te servir!


Para te servir, Senhor,
eu queria ser
ponte, estrada, rio,
luz do sol ao nascer,
vento, calor e frio,
nuvem no céu a correr…

Se eu fosse ponte levaria,
tanta gente para o Teu lado
que, por certo, ficaria
deserto o outro lado!

Se eu fosse luz do sol ao nascer
faria com que te vissem
mesmo os que Te não querem ver!

Se eu fosse vento, calor e frio
temperaria as paixões
que são causa de tanta guerra
e suavizaria os corações
de todos os povos da Terra!

Se eu fosse nuvem no céu a correr
cobriria a maldade do homem
que Te causa tanta mágoa
e choraria por ele
até secar minha água!

Para te servir, Senhor,
eu queria ser
ponte, estrada, rio,
luz do sol ao nascer,
vento, calor e frio,
nuvem no céu a correr…

Carminda de Sousa Marques
(in Deixa-me falar de Ti! 2ª edição AO, 2003)

Saber pedir

Giovanni Lanfranco, Milagre do Pão e dos Peixes, 1620-23

Se um filho (diz Cristo) pedir pão a seu pai, dar-lhe-á uma pedra? Se lhe pedir peixe, dar-lhe-á uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Pois esta é a razão por que Deus, que nos trata como filhos, nos diz muitas vezes de não, e nos nega o que pedimos; porque pedimos pedras; porque pedimos serpentes; porque pedimos escorpiões. Cuidamos que pedimos o necessário, e pedimos o inútil; cuidamos que pedimos o proveitoso, e pedimos o nocivo: e isto é pedir pedras. Cuidamos que pedimos sustento, e pedimos veneno; cuidamos que pedimos o que havemos de comer, e pedimos o que nos há-de comer; cuidamos que pedimos com que viver, e pedimos o que nos há-de matar: e isto é pedir serpentes, e escorpiões. Quando somos tão néscios, ou tão meninos, que não distinguimos o escorpião do ovo, nem a serpente do peixe, nem o pão da pedra, Deus que é Pai, e tão bom Pai, por que nos não há-de negar o que tão ignorante, e tão perigosamente pedimos?

António Vieira, Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma


[Silva Pereira]

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O verdadeiro amor do próximo

Mestre desconhecido holandês, 1537. O bom samaritano

O AMOR do próximo
é o amor que desce de Deus
ao homem.
É anterior ao que sobe
do homem até Deus.
Deus tem pressa de descer
até aos infelizes.

Apenas uma alma se dispõe
ao consentimento,
ainda que seja a última,
a mais miserável,
a mais disforme,
Deus precipita-se nela
para poder, através dela,
olhar, escutar
os desgraçados.
E só com o andar do tempo
a alma toma conhecimento
desta presença.
Mas embora não encontre nome
para lhe chamar,
em todo o sítio
onde os infelizes são amados
por si mesmos
Deus está presente.

Deus não está presente,
embora invocado,
onde os infelizes são simplesmente
uma ocasião de fazer o bem,
ainda que sejam amados com este título.
Porque assim
estão no seu papel natural,
no seu ofício de matéria,
de coisa.
São amados impessoalmente.
E é preciso levar-lhes,
no seu estado inerte, anónimo,
um amor pessoal.

Por isso mesmo,
expressões como
amar o próximo em Deus,
por Deus,
são expressões enganadoras
e equívocas.
Um homem precisa
de todo o seu poder de atenção
para ser capaz simplesmente de olhar
este bocado de carne inerte
e sem vestidos
à beira do caminho.

Não é ocasião
de voltar o pensamento para Deus.
Como há momentos
em que é preciso pensar em Deus
esquecendo todas as criaturas
sem excepção,
há momentos em que ao olhar as criaturas
é preciso não pensar explicitamente
no Criador.

Nestes momentos
a presença de Deus em nós
tem como condição
um segredo tão profundo
que chega a ser segredo
para nós mesmos.
Há momentos
em que pensar em Deus nos separa dele.
O pudor é condição
da união nupcial.

No amor verdadeiro, não somos nós
que amamos os infelizes em Deus,
é Deus em nós que ama os infelizes.
Quando estamos em desgraça,
é Deus em nós que ama
aqueles que nos querem bem.
A compaixão e a gratidão
descem de Deus,
e quando elas se trocam
num olhar,
Deus está presente
no ponto onde os olhares
se cruzam.
O infeliz e o outro
ama-se a partir de Deus,
através de Deus,
mas não por amor de Deus;
amam-se por amor um do outro.
Isto é qualquer coisa de impossível.
Assim, só por meio de Deus,
é possível fazer-se.

O que dá pão
a um infeliz esfomeado,
por amor de Deus,
Cristo não lho agradecerá.
Recebeu já o seu salário
só com ter este pensamento.
Cristo agradecerá
àqueles que não sabiam
a quem davam de comer.

Simone Weil, Attente de Dieu(1957)

Extraído de À Porta do Farol Faz Escuro.
Textos escolhidos traduzidos e dispostos ritmicamente por Manuel Simões
Editorial A.O. - Braga


[Silva Pereira]

terça-feira, 5 de agosto de 2008

As caixas de Deus


Tenho na minha mão duas caixas que Deus me deu para segurar.Ele disse: "Pões todas as tuas mágoas na caixa negra e todas as tuas alegrias na caixa dourada". Segui as Suas palavras e nas duas caixas, tanto as minhas alegrias como mágoas guardei.Mas embora a dourada ficasse dia a dia mais pesada, a preta estava tão leve como antes. Com curiosidade abri a preta, queria descobrir porquê. E vi, na base da caixa, um buraco por onde as minhas mágoas tinham caído. Mostrei o buraco a Deus e perguntei divertida: "Onde andarão as minhas mágoas?". Ele sorriu gentilmente e disse: "Elas estão todas aqui comigo!". Perguntei a Deus por que me havia ele dado então as caixas, porquê a dourada e porquê a preta com o buraco. "A dourada é para manteres contigo e te lembrares sempre das coisas boas; a preta é para te libertares das más".
(Autor desconhecido)


[Helena Gonçalves]

domingo, 3 de agosto de 2008

Na tua luz veremos a luz

José Luís Mendes, olhares.com


DA MODERNIDADE, LUZ QUE EM NÓS MORA,
À AURORA, LUZ QUE VEM DE FORA


1. A Sabedoria do Amor e do Sentido
A teologia é Sabedoria. Sabedoria do Amor, e não amor da sabedoria. A teologia é a Sabedoria de um Amor «crucificado», e só faz boa teologia «aquele que sabe que Outro morreu por ele», para usar a expressão forte de Soren Kierkegaard, e fazer memória dos mais firmes fundamentos paulinos de um amor condescendente e oblativo que nos preside e nos precede (Gl 2,20; 1 Ts 5,10). Assim, porque leva consigo esta intensa história de Amor, o teólogo fala calando e cala falando, rezando, amando, escutando, sempre em bicos de pés, no limiar do silêncio, sempre à escuta da Palavra criadora de Deus, som que nunca se ouviu, silêncio que nunca se calou (Paul Beauchamp). Premurosa pesquisa de sentido por debaixo da rumorosa espuma das palavras. O Verbo de Deus não anda na crista da onda de sons e de sílabas, sintaxe e fonética. O Verbo de Deus não faz vibrar o ar, é sem som e sem sombra. Não sendo a letra nem o som, Ele é o sentido dessa letra e desse som (Paul Beauchamp). E, de modo diferente da letra e do som, o sentido, que se recebe depois de um longo, lento e paciente trabalho de interpretação, ou de rajada, como uma iluminação, o sentido – dizia – não faz barulho. O sentido nunca fez barulho, nunca faz barulho.

2. A metáfora da Luz ou a modernidade
A metáfora da Luz – iluminismo – enche a modernidade. A luz da modernidade é a razão que quer iluminar todas as coisas, querendo assim compreender, com o que há de «prender» no compreender (Emmanuel Levinas), toda a realidade. Esta luz da razão produz identificação (redução do outro à esfera do «eu») e emancipação. Diz Karl Marx, em A Questão Judaica: «A emancipação é a recondução do mundo e de todas as coisas ao homem, para fazer do homem, não mais o objecto, mas o sujeito da sua própria história, do seu próprio destino». É assim que o homem se faz senhor, e não pastor (o pastor é frágil) (Martin Heidegger), e, como senhor, pode dizer: «Eu, eu, e mais ninguém» (Sf 2,15), ou «Eu, eu, e fora de mim não há ninguém» (Is 47,7 e 9), ou ainda «Eu fiz-me a mim mesmo» (Ez 29,3), e ainda «Sou rico, enriqueci, e não preciso de nada» (Ap 3,17), e mais recentemente «Eu penso, logo existo» («Cogito, ergo sum») (Descartes). Como se vê, este homem que se arvora em senhor absoluto, liquida ao mesmo tempo a ideia de criação (Deus) e a ideia de geração (mãe), pondo Deus de lado e esquecendo a sua mãe, e pensando que se põe sozinho no ser pelo seu próprio pensamento, mais ou menos homossexual (Adriana Cavarero). Este triunfo da identidade com o normal corolário da desmedida «identificação», redução de tudo ao «eu» e ao «mesmo», produz a solidão, que sou «eu» sozinho no meio de objectos, depois de reduzir os outros a objectos (Gn 2,18) (Abraham Joshua Heschel), e faz aparecer, pela primeira vez na história da humanidade, o ateísmo, e torna-se fonte de totalitarismos e violências inauditas. É o tempo da razão forte, do discurso lógico e ideológico, do logocentrismo, do sermão inflamado, do compêndio único. Em A Gaia Ciência, aforismo 125, Nietzsche descreve plasticamente esta realidade, quando faz sair, para a praça da cidade, em plena luz do dia, um homem louco, que leva na mão uma lanterna acesa, enquanto grita pela cidade: «Deus morreu; nós matámo-lo!» Foi assim que nos tornámos os senhores do mundo. Mas começa, entretanto, a cair a noite e a fazer frio. Não é o assassinato de Deus que apoquenta Nietzsche. Apoquenta-o a orfandade em que, com esse acto desmedido e de tresloucada audácia, caiu a humanidade. A frouxa luz da lanterna que exibe e com que em plena luz do dia pretende iluminar o mundo representa ironicamente a luz da razão, da nossa pequena razão, que quer sempre dominar o mundo, retê-lo na sua mão fechada.

3. A metáfora da Noite ou a pós-modernidade
A metáfora da Noite traduz a pós-modernidade, tempo em que a razão forte da modernidade se descobre como razão frágil e fragmentada, incerta e inquieta, ao sabor do slogan rápido e afectado. A democracia cede terreno à mediocracia. O sucesso não tem a ver com a razão e o discurso bem elaborado, mas com o dizer mais afectado, mais alto e mais rápido. A noite é um tempo de naufrágio. Partindo de uma cena do Rerum Natura, de Lucrécio, que narra os sentimentos de dor e de angústia, mas ao mesmo tempo de tranquilizante conforto, de um observador que, na praia, com os pés em terra firme, assiste a um navio que se afunda, lá longe, no mar, Hans Blumenberg define a modernidade como «naufrágio com espectador». Neste sentido, o homem moderno ainda pensava que tinha um pedaço de terra firme debaixo dos pés: a sua razão. Ao contrário, o homem pós-moderno perdeu já esse naco de terra e de razão e está dentro do navio que se afunda, sendo ao mesmo tempo náufrago e espectador. A única coisa que lhe resta é tentar construir, com os restos do navio desconstruído, um jangada que lhe permita sobreviver por algum tempo. A pós-modernidade, como a noite, é um tempo sem horizontes, em que cada um se fecha na concha da sua própria solidão, no seu pequeno grupo de amigos, no seu mundo fechado, à volta de umas quantas latas de cerveja, de pequenos rituais herméticos e esotéricos e correspondente vocabulário, à mistura com uns kicks emocionais, para logo resvalar outra vez cada um para o seu naco insensato de solidão, escuridão e indiferença. A questão já nem sequer é a falta de sentido. A questão é a ausência de perguntas pelo sentido. Estamos na «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, no tempo do exílio. E diz uma velha história rabínica que «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o velho rabino respondeu que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas. Os límpidos versos do poeta espanhol Antonio Machado dizem a mesma coisa de outra maneira: «En el corazón tenía/ la espina de una pasión;/ logré arrancármela un dia:/ ya no siento el corazón». A noite da pós-modernidade deixa-nos na indiferença e na insensibilidade, sem amor nem dor nem alegria, sem grandes sonhos, sem grandes causas, sem perguntas e sem esperas, perdidos no meio de fragmentos, agarrados ao nosso bocado de tempo, que há que fruir (Gianni Vattimo), de acordo com o horaciano carpe diem, documentado também na Sb 2,6-9, em Is 22,13 e em 1 Cor 15,32.

4. A metáfora da Aurora ou a Luz que vem de fora
Depois da luz e da noite, já se vislumbra no horizonte a metáfora da Aurora, luz que vem de fora. O canto de um galo rasga a noite, e Pedro sai para fora. E chora (Mt 26,74-75). O mais querigmático dos animais anuncia a Pedro que está a nascer o dia. O dia mesmo. O dia sem noite e sem série (Zc 14,7; Ap 21,23). É o que assinala o galo presente nos sarcófagos dos primeiros cristãos, donde passa para os campanários das Igrejas. O galo não se rege pelas horas do relógio, nem o seu canto pelas notas musicais. São partituras de sentido que trauteia, música nova, que vem de fora, e não entra pelo ouvido. Rombo na totalidade. Evento-Advento (Ereignis). O tudo, pelo simples facto de ser tudo, tem necessariamente de ser limitado, limitado com limite, mas sem limiar, porque o tudo, se é tudo, como é que pode ter ainda janelas para outra coisa?! A aurora é luz que vem de fora, rebenta o limite com a graça de um novo limiar. Claro convite a trans-gredir, de trans-gredior, dar um passo para além de. Transformar o limite num novo limiar. Evento-Advento para um novo Êxodo. A nova ordem é sair para fora de si, pois é de fora de ti que vem o sentido da vida. O rosto do Outro, incontrolável e inviolável, é a ordem nova e o sentido até agora insuspeitado (Emmanuel Levinas). Deus deixa-se encontrar por aqueles que não o procuram,/ manifesta-se àqueles que não se dirigem a Ele (Is 65,1; cf. Rm 10,20). Deus vem, portanto. Evento-Advento, Êxodo, escuta, encontro, espanto. «De outro modo que ser» (Emmanuel Levinas). Cogitor, ergo sum (Karl Barth). Amor, ergo sum. «Sou pensado, logo existo». «Sou amado, logo existo». Eu não sou incestuosa e tautologicamente filho de mim mesmo, como sugeria o cogito cartesiano. Um Amor me precede. Outras mãos me acolhem. Outras mãos se estendem para mim. Sair de mim. Do meu mundo, dos meus projectos, dos meus domínios e afazeres, do meu «eu» patronal, do meu esforço para permanecer no ser, o espinoziano conatus essendi. «Sair (yasa’) é o verbo emblemático do êxodo. Exprime uma saída sem retorno, que reclama a saída do bebé do ventre materno» (Ubaldo Terrinoni). Saída para uma radical confiança no outro que me precede e me acolhe. Pensar depois do Evento-Advento e do Êxodo significa, na verdade, «ser pensado», «ser amado».

5. Um percurso paradigmático
Recordamos aqui o caso sério de Martin Heidegger. Começou como estudante de teologia. A teologia é, no seu dizer, a disciplina da escuta humilde do silêncio de Deus. Decorridos dois anos, passou-se para a filosofia, que é a disciplina da interrogação radical («Por que há o ser e não o nada?»), da compreensão e do domínio da realidade. Fruto desta sua postura é o «Ser o Tempo» (Sein un Zeit), obra aparecida em 1926, que tem a sua tradução prática na sua adesão, em 1933, ao nacional-socialismo, como ideologia de domínio da realidade pela violência. O mundo esperou pela segunda Parte desta Obra, que nunca chegou a aparecer. Na verdade, Heidegger, reconhecendo a tragédia do projecto nacional-socialista, que quanto mais tentava subjugar o mundo, mais este lhe escorregava das mãos, reconheceu também o fracasso da sua filosofia, ao verificar que, se era possível dizer o ser das coisas (Dasein), já não era possível dizer o Ser (Sein) que está por detrás das coisas, pois não é possível dizer o Ser com as palavras da nossa linguagem, sempre demasiado frágeis e pequenas, capazes de dizer o fragmento, mas incapazes de dizer o abismo que sustenta e em que navega o fragmento. Por outras palavras: como dizer o «de outro modo que ser» com a linguagem do ser? Surge então, nos anos 1936-1938, em que escreve Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) [Contributos para a Filosofia (do Evento)] – obra publicada postumamente, em 1989 –, a chamada «reviravolta» (Kehre) heideggeriana, em que Heidegger se apercebe que pensar não consiste no orgulhoso exercício de interrogar, compreender e dominar o ser, mas na atitude humilde de escutar o Ser – passagem da interrogação para a escuta –, sendo que «escutar é deixar-se dizer», e falar não é dominar, mas simplesmente re-dizer o Dizer que escutámos. Imensa mudança de perspectiva e atitude. Da luz da nossa pequena razão, que em nós mora, que tudo pretende dominar para aprisionar, à luz da aurora, que vem de fora, para nos libertar.

6. «Na tua luz veremos a luz»

É o dizer luminoso do Sl 36,10. E Paulo pode ser o ícone do homem novo nascido dessa torrente de luz que nos cega e nos acende os olhos (Act 9,1-18; 22,6-16; 26,12-23). Um vasto mar de amor me precede, me envolve, me revolve e me devolve a mim. Eu dado a mim (Claude Bruaire). O homem bíblico tem de viver de mãos abertas (kaph). Só assim se recebe das mãos de Deus para ele estendidas (Is 65,2), das palmas das mãos de Deus em que está carinhosamente tatuado (Is 49,16). É de mãos abertas que Deus governa o mundo (Ecli 18,3). O Talmud, que é a sabedoria hebraica condensada em cinco milhões de palavras, refere exemplarmente que o punho cerrado representa a sabedoria do imbecil, que pensa que detém o mundo nas malhas da sua rede. E refere depois que, quando a mão inicia o movimento de se abrir, é como as pétalas de uma flor que se abre à vida. E acrescenta: é assim que floresce a inteligência. E, quando a mão se abre completamente, é a mão do sábio, que não retém nada, mas conhece o valor do encontro e do dom. E, cruzando agora as duas mãos abertas, ficamos com a imagem do «pássaro, livre, que voa». Processo inverso ao da filosofia, desde Zenão a Platão, Descartes, Fichte e Nietzsche, que apresentam o conhecimento como a captura ou compreensão que o sujeito faz do objecto. A verdade (a-lêtheia) é assim o desvelamento ou desocultação a que o sujeito submete o objecto, para dele se apoderar, representando-o e reproduzindo-o na mente, «adequação entre a coisa e a mente» (adequatio rei et intellectus), como referem Aristóteles e Tomás de Aquino. O último Heidegger, a que já aludimos, considera que esta concepção de verdade é a matriz da violência do Ocidente, e diz as coisas de outra maneira: não é o sujeito que captura e desoculta o objecto, mas é o objecto que sai do seu esconderijo e se oferece ao homem como dom, como evento (Ereignis). Por isso, a função do sujeito já não é capturar e dominar com o que há de «prender» no compreender, mas acolher com espanto, alegria e reconhecimento. A Bíblia e a teologia estão claramente do lado do último Heidegger. Mas vão muito mais longe, trans-gredindo-o, pois não se trata de objectos que se entregam ao homem, mas de um Tu, o Tu de Deus, que, por amor, vem até ao homem e a ele se entrega por amor, debruçando-se sobre ele e abaixando-se até ao ponto de lhe lavar os pés e a alma (Von Balthasar), de cuidar dele, de o alimentar, de lhe afagar o rosto, de o ensinar a andar: «Fui Eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era Eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos Eu os atraía./ Com laços de amor,/ Eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Os 11,3-4). Aí está a verdade (’emet) como confiança (’emunah), derivados de ’aman, que significa segurar, firmar, fiar-se. É o mundo da mãe e do bebé, da aleitação, da lalação, da palavra antes das palavras.

7. A metáfora da tartaruga ou a transgressão
A tartaruga acaba de deixar o seu esconderijo para um passeio nocturno. O sapo vê-a sair de casa àquela hora, e adverte-a: «A esta hora não é muito aconselhável sair, tartaruga». Mas a tartaruga continua, e, arriscando um passo mais longo, vê-se virada de patas para o ar, sobre a sua própria couraça. O sapo exclama: «Eu bem te avisei, tartaruga; é uma imprudência sair a esta hora; morrerás aí!» «Bem sei», respondeu a tartaruga com um olhar entre a malícia e a delícia; «Bem sei, mas é a primeira vez que estou a ver o céu estrelado!» A tartaruga ensina que não nos podemos contentar em viver mais ou menos tranquilamente com a cabeça enterrada na areia do céu ou da terra. Deduzir o céu da terra, ou o Último do penúltimo, é apenas areia. Areia é trocar o Último pelo penúltimo. O penúltimo é o mundo dos meios sem fins, da razão instrumental (Max Horkheimer), das pessoas como objectos, que se movem no tempo como os objectos se movem no espaço. Um passo em frente. É imperioso e urgente pensar. Trans-gredir. «Pensar é trans-gredir» (Denken heisst überschreiten) (Ernst Bloch). Sair de casa como a tartaruga, extasiar-se e desviar-se do caminho como Moisés (Ex 3,3-4). É o céu que vem interromper curso e percurso. O Último interrompe o penúltimo, mundo desencantado (Max Weber), outra vez visitado, amado, encantado. Pensar é trans-gredir, pensar é ser pensado, amado. A luta e o amor. «Tu és bela, minha amada,/ terrível como um exército em ordem de batalha» (Ct 6,4). Para além dos meios. Amor sem luta é posse de um objecto. O amor verdadeiro é agónico. Não é por acaso que agápê (amor) e agôn (luta) têm a mesma etimologia. Paradoxo do amor: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lc 9,24). Aí está o verdadeiro ícone do amor, Cristo, que não se salvou a si mesmo para me salvar a mim, morrendo por amor de mim, trans-gredindo assim a morte. Ícone do amor. Ícone também da trans-gressão, do advento e do êxodo: sai de Deus, sai de si, sai para Deus.

8. A partir da esperança
Paulo diz aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo (elpída mê échontes kaì átheoi en tô kósmô)» (Ef 2,12). Este marcador Paulino atravessa a Encíclica Spe salvi, de Bento XVI. Sem Deus no mundo, habitação desabitada, não há esperança. Pode haver apenas pequenas deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo. No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», sempre assente nos nossos calculismos e exercícios racionais, pequenas deduções. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã, de que fala Paulo (e Bento XVI), é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança) (Rm 4,18). É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah, e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estica para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso, não abaulado, e seguro entre duas mãos, a de Deus e a nossa. Única maneira de se poder atravessar, com segurança e confiança, o vau da morte. Paulo transfere esta imagem do «fio» ou da «corda» para o mundo e para o homem, e coloca-os nesta tensão esperante, através do recurso ao nome apokaradokía (Rm 8,19; Fl 1,20), de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar] que só ele usa no NT, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo. Apokaradokía traduz a atitude de quem alonga o pescoço o mais possível para tentar ver o que ainda não se vê, atitude muito próxima da traduzida por apekdéchomai (Rm 8,25), de apò-ek-déchomai, que implica uma forte conotação de recepção, tensão para receber a salvação de Deus, tensão para o dom, pois um dom, não o podemos produzir com as nossas mãos; só o podemos receber de outras mãos. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude amante de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos que Alguém espera por nós. Habitação habitada, êthos e éthos. É Deus que constrói a casa, a habitação (êthos); é dele que recebemos o hábito, a ética (éthos).

António Couto

sábado, 2 de agosto de 2008

Interpelação-Resposta

Caravaggio - Vocação de Mateus


“Como vemos nós que este gesto realiza, de facto, uma interpelação, que essa interpelação origina uma vocação e, portanto, se dirige a um apenas, que o identifica e o reconhece? Nós vemo-la – a esta interpelação – manifestar-se no olhar de Mateus, infinitamente mais do que no gesto do próprio Cristo; porque Mateus, que levanta os olhos da mesa e se desvia das moedas, não se apercebe tanto de Cristo, mas sim do seu olhar, que o atinge; … Então – e nisso está o momento decisivo – apanhado no cruzamento dos olhares, Mateus tenta, com a sua mão esquerda, o gesto de se designar a si mesmo, em silenciosa resposta à interpelação, que não podia ser dita, nem escutada, e pergunta, ou melhor, anuncia: «Eu?» O que faz ver a vocação, isto é, a interpelação duplamente invisível, não resulta de um sinal visível (de facto, sempre indistinto), mas da própria resposta”.

Jean-Luc Marion, Étant donné, Paris 1997, 392-393.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Crer é razoável

Moretto de Brescia,


A fé não é o mesmo que perder a confiança na razão, ao ver os limites do nosso conhecimento; não é a entrega ao irracional, em face dos perigos de uma razão meramente instrumental. A fé não é também expressão de cansaço ou de fuga, mas sim afirmação corajosa do ser, e abertura à grandeza e complexidade da realidade. A fé é um acto de afirmação. Apoia-se na força de um novo sim que o homem se torna capaz de pronunciar em virtude da iniciativa com que Deus vai ao seu encontro.
Precisamente na situação hodierna, de aberto e vasto ressentimento contra a racionalidade da técnica, parece-me importante evidenciar a razoabilidade essencial da fé. Nem a releitura crítica, desde há tempos em curso, poderia legitimamente censurar à modernidade a confiança na razão enquanto tal, mas apenas a redução do conceito de razão, visto que esta redução é que acabou por abrir a porta às ideologias irracionais. O mistério, tal como o alcança a fé, não é o irracional, mas sim a máxima profundidade da razão divina, que nós, com a nossa fraca vista, não temos capacidade para penetrar. Sempre foram e continuam a ser afirmação fundamental da fé as palavras com que João, retomando e aprofundando a narrativa da Criação contida no Antigo Testamento, abre o seu Evangelho: “No princípio era o Logos”, a razão criadora, a energia da inteligência de Deus, que enche de significado todas as coisas. Só poderemos compreender rectamente o mistério de Cristo a partir deste início, em que a razão se manifesta também como amor.
A primeira afirmação da fé diz-nos, portanto: tudo o que existe é pensamento feito realidade. O Espírito criador é a origem e o princípio que funda todas as coisas. Tudo o que existe é, na origem, racional, porque procede da razão criadora.
Novamente nos encontramos perante a oposição fundamental entre materialismo e fé. O credo do materialismo postula que ao princípio se encontra o irracional, e que só as leis do acaso produziram a racionalidade sobre a base da irracionalidade. A razão é, pois, um subproduto da ausência de razão, e a sua estrutura, assim como as suas leis, são simplesmente resultado de combinações produizdas por uma instância alheia, privada de conteúdo ético ou estético. Assim o homem se torna um adepto da engrenagem do mundo que ele faz progredir de acordo com os seus fins. E o irracional continua a ser a autêntica potência originária.
A fé ensina exactamente o oposto: o Espírito é a origem criadora de todas as coisas, e por isso elas têm em si uma razão não derivada de si mesmas e que as ultrapassa infinitamente, embora constituindo a sua mais íntima lei. A razão criadora, que dota as coisas de uma racionalidade objectiva, de uma lógica oculta e de uma ordem intrínseca, é ao mesmo tempo razão moral e Amor.(...)
Perante a actual crise da razão, é bom que volte a brilhar claramente esta natureza essencialmente razoável da fé. A fé salva a razão, até porque a abraça em toda a sua amplitude e profundidade e a protege contra as tentativas para a reduzir àquilo que pode ser verificado experimentalmente. O mistério não se apresenta como inimigo da razão; pelo contrário, salva e defende a íntima racionalidade do ser e do homem.

Cardeal Ratzinger, A Igreja e a Nova Europa
[Silva Pereira]

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Pausa

Durante o Verão, o jornal La Croix oferece, todos os dias, aos leitores, uma selecção de canções francesas. Algumas podem ser escutadas no site deste diário católico. As sugestões incluem músicas antigas e recentes de autores pouco ou muito conhecidos. Na lista, encontram-se, por exemplo, Le petit âne gris, de Hugues Aufray; La valse à mille temps, de Jacques Brel; Le jour se lève, de Grand Corps Malade; Le Métèque, de Georges Moustaki. Pause, de Anne Sylvestre, é uma das propostas que vale a pena ouvir.


PAUSE

Ça serait une pause
Entre deux sonneries
Quand le bruit se repose
Un soupçon d'accalmie
Ça serait un silence
Au milieu du fracas
La minute d'absence
Où on ne répond pas

Un petit temps d'arrêt
Siou plait
Je crois qu'il me faudrait
Juste un peu de secret
Juste un peu de secret

{Refrain:}
Faire un palier
Rien qu'un petit palier
Grappiller cet instant
Pour mettre innocemment
Pour mettre impunément
Un peu de flou dans mon emploi du temps

Ça serait un mensonge
Entre deux vérités
Une question qui plonge
Avant d'être posée
Ça serait une fable
Au milieu des discours
Une fuite improbable
Un ultime recours

Même si ça dépayse
Oh please
Il faudrait que je dise
Juste quelques bêtises
Juste quelques bêtises

{au Refrain}

Ça serait un scaphandre
Au milieu des requins
Quand la chair est si tendre
Et l'habit si mesquin
Ça serait une esquive
A ce monde voyeur
La défense passive
Armure du rêveur

Sans beaucoup d'exigence
Je pense
Qu'il me faudra d'urgence
Juste un peu de silence
Juste un peu de silence

{au Refrain}


Eduardo Jorge Madureira Lopes

terça-feira, 15 de julho de 2008

Canto litúrgico




Não sabemos como há-de ser feita nem quem deverá tomar a iniciativa de fazê-la, mas é urgente uma revisão do canto litúrgico. É necessário reflectir sobre o que de bom e de menos bom se foi fazendo, para melhorarmos o que houver a melhorar.
Antes de mais, convém deixar claro que podemos estar profundamente unidos com Deus enquanto cantamos um cântico sem qualidade. Deus não é propriamente um crítico musical ou literário. Ele olha, antes de mais, para o amor com que fazemos as coisas. Sabemos, porém, que um belo canto ajuda o homem a elevar-se para Deus. Pelo contrário, a má qualidade, com muita frequência, não só distrai as pessoas da oração como até as pode deixar à beira de um ataque de nervos. Se Deus é beleza, as nossas linguagens da beleza, que são as linguagens artísticas, serão até as mais adequadas para falarmos com Ele. Sempre assim o entenderam os homens de todos os tempos e de todas as culturas. Por isso nos devemos esforçar por cantar belas melodias, belos textos, e cantá-los o melhor que soubermos.
1. Temos encontrado muita diversidade de estilos nas celebrações: música country, música pop, música rock, gospells, bossa nova, samba, música de westerns, com banjo em fundo e harmónica de boca fazendo solos, o que nos faz lembrar cow-boys afastando-se a cavalo nas imensas pradarias americanas. Já encontrámos interpretações muito próximas do heavy metal, assim como coisas que podiam ser cantadas pelo Marco Paulo ou pelo Tony Carreira. Já ouvimos meninas a cantar ao estilo da Ágata e dos outros cantores de música pimba. Já ouvimos cantar em italiano. Ainda não encontrámos nenhum exemplo de rap, mas não tardará muito. Frequentes vezes, demasiadas vezes, o estilo dos cânticos e da música que os acompanha leva-nos para um ambiente de discoteca ou de festa de cerveja. Não pode ser.
A justificação que vulgarmente se dá é a de que tal género de música atrai mais os jovens. Poderá ser verdade. No entanto, convém recordar que os jovens não são os únicos que participam na liturgia. Participam pessoas de todas as idades, crianças, pessoas menos jovens, pessoas de idade mais avançada. E muitas das coisas que se cantam são inquestionavelmente inadequadas para uma assembleia numerosa e heterogénea. Não me refiro apenas às melodias, frequentemente afectadas, mas também ao andamento, por exemplo. Os cânticos litúrgicos não podem ter um andamento demasiado rápido nem sincopado. São inadequados para uma assembleia onde podem estar centenas de pessoas e que, por natureza, é mais lenta a cantar. Pode haver momentos em que o coro ou o solista a represente, sem dúvida. Acontece, porém, demasiadas vezes, que a assembleia permanece muda durante toda a celebração.
2. Parece-nos inconveniente o lançamento constante de cânticos novos. É óptimo que haja variedade. No entanto, o excesso faz com que as pessoas tenham dificuldade em fixar tudo o que de novo vai aparecendo.
3. Se vamos, por acaso, a outra igreja que não a da nossa paróquia; se participarmos na eucaristia numa outra cidade, corremos o risco de ficar calados porque os cânticos são quase sempre diferentes dos que sabemos. Devia haver um reportório que toda a gente conhecesse. Não sabemos como se há-de resolver a situação, mas, ao fim de todos estes anos, já deve haver um numeroso grupo de melodias, de reconhecida qualidade, que pudesse ser adoptado por toda a igreja portuguesa. E, já agora, nele deveriam figurar cânticos mais antigos, alguns belíssimos, que deixaram de se ouvir. Foi uma pena.
4. Nenhum cântico deveria ser cantado sem a aprovação de uma comissão que, aliás, julgo existir, e sob cuja responsabilidade se publica uma revista de música sacra. A justificação é simples: teríamos a garantia de um mínimo de qualidade.
5. Nenhum dos textos litúrgicos fixos– não sei se é assim que se diz - que são cantados durante a Eucaristia deveria poder ser substituído por outros. Por exemplo: não se deveria substituir nunca o texto do “Cordeiro de Deus” ou do “Santo”. A razão é simples: são de uma beleza e de uma profundidade espiritual de tal maneira grandes, que dificilmente poderão encontar-se outros equivalentes.
7. Deveriam ser banidos da liturgia cantos em tom menor. Bem sabemos que há momentos - os cânticos penitenciais, por exemplo – em que o tom menor parece o mais adequado. Contudo, mesmo nesses casos, deveriam evitar-se melodias que mais parecem convidar-nos à depressão ou ao desespero suicida do que à sentida penitência. A liturgia é alegria íntima e serena, não tristeza melancólica.
8. Deveriam escolher-se cânticos que não façam subir a voz a notas muito agudas. Brincando um pouco, alguns nem o Pavarotti seria capaz de cantar. É problema nem sempre de fácil resolução porque a maior parte dos acompanhantes no órgão não são capazes de fazer a transposição para um tom mais baixo. Havia em tempos harmónios em que era possível movimentar o teclado para a esquerda ou para direita, precisamente para se poder descer ou subir o tom. Não sei se ainda existem.
9. E já que falámos do acompanhamento dos cânticos no órgão, gostaríamos de deixar aqui algumas observações:
- Por favor, não se utilize o registo “Trémulo”. Não sabemos por que razão, em quase todas as igrejas, põem o órgão a tremelicar, como se estivesse com problemas de corrente eléctrica ou atacado de delirium tremens. Revela um péssimo gosto. Ficamos imediatamente com a sensação de estar num salão de dança.
- Parece mil vezes preferível cantar sem acompanhamento do que ouvir um organista impreparado. Ora põe o órgão num volume que abafa a voz dos solistas e da assembleia, o que ainda é o menos, ora não acerta nas notas nem tem a mínima noção de harmonia nem de tonalidade. O canto está construído num tom e ele acompanha noutro ou até em nenhum. Tudo isto se faz com a maior das boas intenções, certamente, mas não deve haver maneira mais eficaz de afastar pessoas da missa do que a inépcia de alguns acompanhantes.
- Quem diz órgão diz outros instrumentos. Não nos custa nada admitir que se utilizem na liturgia outros instrumentos, embora alguns nos pareçam completamente inadequados. No entanto, o mínimo que se exige é que sejam bem tocados e não abafem a voz da assembleia. A voz humana é o mais importante de todos os instrumentos. Quando ela intervém, todos os outros devem baixar o volume.
- Dispensaríamos perfeitamente a bateria em cerimónias litúrgicas. Não acrescenta absolutamente nada nem ao canto nem à música. Pelo contrário, só atrapalha, impondo uma rigidez de compasso e um ruído de fundo incompatíveis quer com a maleabilidade expressiva dos cânticos, quer com a natureza de uma assembleia numerosa e heterogénea que tende a cantar lentamente. Além disso, é perfeitamente erróneo pensar que um cântico tem mais ritmo só porque é acompanhado por uma bateria.
- Já ouvimos, em algumas cerimónias, batuques discretamente percutidos, aliás. Não custa nada admitir que se utilizem, mas parece-nos que ficariam muito melhor numa celebração litúrgica africana, por exemplo.

São estas as observações que hoje temos para apresentar. Oxalá possam contribuir para a solução de um problema que necessita de solução urgente.


Silva Pereira

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Literatura e Sagrado (4)


1. Vergílio Ferreira defendeu em diversos escritos que a Arte ocupa em grande medida, contemporaneamente, o vazio de uma sociedade pós-secular e agonicamente racional. Numa cultura que abandonou Deus e os valores cristãos, mas que continua a ser confrontada com as limitações e angústias da condição humana, a Arte e a sua funda expressão simbólica preenchem o lugar do sagrado.

Tal como outras artes, a literatura actual dá voz à plangente interrogação existencialista do homem, desamparado na sua incomunicabilidade e solidão, bem como na irredutibilidade de ser confrontado perante a inexorabilidade da morte. Através da expressão artística, reencontram-se o sagrado e o estético: o ser humano eleva-se de forma transcendente; e recupera as marcas perdidas do homem religioso. A noite do mundo é iluminada pelo brilho inquietante e eterno da palavra inspirada.

2. A título de breve ilustração dos pensamentos anteriores neste blog – sobre as manifestações de sacralidade contidas na expressão literária – e sem desnecessários comentários críticos, leiam-se dois poemas de Ana Luísa Amaral*, retirados do seu mais recente livro de poesia:


VISITAÇÃO

Um anjo aqui desceu (terá descido?),
dizendo que o silêncio humano outrora
fazia agora parte do divino,
e o que o templo maior, rasgado o pano,
tinha passado a ser culto de nós.

Do éter rarefeito veio a voz,
queixando-se das sombras da cidade:
que o mundo era só verde, e que o azul
só o azul do céu, com letra humana
gravada numa mesa de madeira.

Um anjo desceu (há provas mais)
e aqui ficou, exausto das canseiras
de ser mediador entre dois mundos,
de ter em dois segundos que voar
e mergulhar depois em três segundos.

E aqui ficado, o anjo adormeceu,
sonhando com estações e com instantes,
aos poucos esquecendo tempos dantes
e a água densa do eterno mar.

E quando se rasgou o tempo outro
e ele acordou, refeito e bocejante,
viu que era bom ter nome, e sede, e fome,
cinco dedos nas mãos – algum olhar.



OS TEARES DA MEMÓRIA:
MNEMÓSINE E SUAS FILHAS

Desejava esquecer, mas elas não me deixam:
chegam com seu tear e sua mão cruel,

e sobre mim ensaiam um cansaço
que há séculos lhes tem sido alimento

Têm dentes ferozes e poderosas unhas
com que tocam a flauta e festejam o fuso,

e uns olhos muitos belos, com íris poderosas,
de sobressair ondas, de desesperar ventos.

E as fontes enganosas onde encontram guarida
tingem-se com as cores da sombria memória

Não me deixam esquecer: só me trazem
a história dentro da própria história,

desejo incontrolável de contra mim ficar,
a horas muito breves, de desespero fundo,

a falar nem de nada, desejando por dentro
deixar de me sentir, ou então sentir tudo.

Não me deixam esquecer, e o seu tear agudo:
herança dessa mãe que sobre elas pousou,

que as fadou frias, belas, e ao gerá-las assim,
lançou no meu olhar a memória do mundo.

Pertencem-lhes as fontes, tão falsas e funestas
como funestos são os seus gritos sem som,

delas fazem brotar as águas mais avessas
com algas que me entrançam palavras e cabelos.

E eu que queria esquecer, viver num outro mar,
atravessar a nado os pinheiros mais altos,

sou condenada a dar-lhes o alimento azul
de que elas se alimentam: um cansaço de séculos.

Sou condenada a ver para além deste tempo,
através dos seus olhos de poderosa luz,

e as flautas que elas tocam e o fuso que festejam
não são flautas só fusos, mas lanças e muralhas.

Com elas me recordo, por elas me relembro
e invade-me a lembrança, exasperada, impura.

Desejava esquecer, mas elas não me deixam,
e a memória do mundo: uma pesada herança,

legado que não devo deixar a mais ninguém,
que não posso gastar conforme me apetece,

porque elas o governam em mil sabedoria:
obrigam-me a usá-lo contrário ao meu desejo,

e se o desejo às vezes, desviam-no de mim.
É sua mãe cruel que as governa e a mim.

E todas enredadas nesta teia de espelhos
sofremos igual sorte, temos o mesmo fim,
partilhamos da mesma vontade de esquecer.

Mas não o deixa ela, nem o permite a morte –

* Breve nota informativa:
Ana Luísa Amaral (n. 1956, Lisboa) é autora de nove livros de poesia e de dois livros infantis. É também professora da Faculdade de Letras do Porto. Representada em inúmeras antologias portuguesas e estrangeiras, a sua poesia encontra-se traduzida para várias línguas. Em 2007, obteve o Prémio Literário Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas. Também foi distinguida em Itália, com o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi.

Em Junho de 2008, a autora foi galardoada com o Grande Prémio de Poesia APE/CTT, distinguindo por unanimidade o melhor livro publicado no ano de 2007: Entre Dois Rios e Outras Noites (Porto, Campo das Letras). Foram membros do júri: Ana Paula Arnaut, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Nuno Júdice, professor da Universidade Nova de Lisboa, e também ele escritor; e Cândido Oliveira Martins, professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Na acta da reunião, o júri deixou resumida a justificação da sua escolha nestes termos: “De entre um conjunto de obras poéticas de qualidade indiscutível a concurso, a escolha do júri recaiu por unanimidade sobre o livro Entre Dois Rios e Outras Noites, de Ana Luísa Amaral. Destaca-se pela coerência temática e pela capacidade de encontrar uma forma precisa para tratar o mundo pessoal e a realidade contemporânea sem abdicar da justeza de expressão e da qualidade poética que caracterizam uma obra que se tem vindo a afirmar com uma das mais significativas da nossa actual poesia”.
| Cândido Oliveira Martins