quinta-feira, 4 de setembro de 2008
« Cristo não é, primeiramente, o mediador entre os homens e Deus. Cristo é, primeiramente, o mediador entre cada eu consigo mesmo, permitindo a cada eu ser um eu. Esta não é uma relação abstracta, redutível a uma conceptualização formal. Há, já o dissemos, uma existência fenomenológica, uma carne. Se é a ipseidade originária do Arqui-Filho que edifica o eu, unindo o eu consigo mesmo, esta relação unificadora é também o alimento que apascenta as ovelhas, as nutre e lhes assegura o crescimento, porque o eu unificado consigo acresce-se e engrandece-se. Este acréscimo em qualquer possível eu, esta auto-afecção que toca o eu em toda a extensão do seu ser é o corpo, a carne fenomenológica, o corpo vivo. Sou-me dado a mim mesmo, neste corpo vivo e assim sou um eu, sou o meu eu. Mas, não sou eu que me dou a mim, não sou eu que me unifico. Eu não sou a porta que me abre a mim mesmo. Eu não sou a erva que me alimenta e me faz crescer. No meu corpo sou-me dado, mas eu não me dou o meu corpo. A minha carne, o meu corpo vivo é o de Cristo. É o que diz Aquele que João cita: «Eu sou a porta: aquele que entrar por mim… entrará e sairá e encontrará pastagens» (Jo 10, 9)".
Michel Henry, Eu sou a verdade, Ed. Vega, 1998, 120-121.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Conta-se que…

Um Ancião recebeu, certa vez, a visita de alguns amigos:
Para Te servir
A propósito, veio-me à lembrança um poema que escrevi, há mais de uma dezena de anos, num momento de enorme ardor apostólico. Ouso partilhá-lo hoje convosco. Julgo que ele diz bem o ardor que já nos possuiu, a todos nós, em algum momento. E ainda possui! Por isso cá estamos… Uma chama destas não se extingue facilmente! Mas… como todas as chamas sujeitas aos efeitos das “intempéries”, sofre oscilações na sua intensidade… De vez em quando, precisa de ser espevitada…
Para Te servir!
Para te servir, Senhor,
eu queria ser
ponte, estrada, rio,
luz do sol ao nascer,
vento, calor e frio,
nuvem no céu a correr…
Se eu fosse ponte levaria,
tanta gente para o Teu lado
que, por certo, ficaria
deserto o outro lado!
Se eu fosse luz do sol ao nascer
faria com que te vissem
mesmo os que Te não querem ver!
Se eu fosse vento, calor e frio
temperaria as paixões
que são causa de tanta guerra
e suavizaria os corações
de todos os povos da Terra!
Se eu fosse nuvem no céu a correr
cobriria a maldade do homem
que Te causa tanta mágoa
e choraria por ele
até secar minha água!
Para te servir, Senhor,
eu queria ser
ponte, estrada, rio,
luz do sol ao nascer,
vento, calor e frio,
nuvem no céu a correr…
Carminda de Sousa Marques
(in Deixa-me falar de Ti! 2ª edição AO, 2003)
Saber pedir
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
O verdadeiro amor do próximo
é o amor que desce de Deus
ao homem.
É anterior ao que sobe
do homem até Deus.
Deus tem pressa de descer
até aos infelizes.
Apenas uma alma se dispõe
ao consentimento,
ainda que seja a última,
a mais miserável,
a mais disforme,
Deus precipita-se nela
para poder, através dela,
olhar, escutar
os desgraçados.
E só com o andar do tempo
a alma toma conhecimento
desta presença.
Mas embora não encontre nome
para lhe chamar,
em todo o sítio
onde os infelizes são amados
por si mesmos
Deus está presente.
Deus não está presente,
embora invocado,
onde os infelizes são simplesmente
uma ocasião de fazer o bem,
ainda que sejam amados com este título.
Porque assim
estão no seu papel natural,
no seu ofício de matéria,
de coisa.
São amados impessoalmente.
E é preciso levar-lhes,
no seu estado inerte, anónimo,
um amor pessoal.
Por isso mesmo,
expressões como
amar o próximo em Deus,
por Deus,
são expressões enganadoras
e equívocas.
Um homem precisa
de todo o seu poder de atenção
para ser capaz simplesmente de olhar
este bocado de carne inerte
e sem vestidos
à beira do caminho.
Não é ocasião
de voltar o pensamento para Deus.
Como há momentos
em que é preciso pensar em Deus
esquecendo todas as criaturas
sem excepção,
há momentos em que ao olhar as criaturas
é preciso não pensar explicitamente
no Criador.
Nestes momentos
a presença de Deus em nós
tem como condição
um segredo tão profundo
que chega a ser segredo
para nós mesmos.
Há momentos
em que pensar em Deus nos separa dele.
O pudor é condição
da união nupcial.
No amor verdadeiro, não somos nós
que amamos os infelizes em Deus,
é Deus em nós que ama os infelizes.
Quando estamos em desgraça,
é Deus em nós que ama
aqueles que nos querem bem.
A compaixão e a gratidão
descem de Deus,
e quando elas se trocam
num olhar,
Deus está presente
no ponto onde os olhares
se cruzam.
O infeliz e o outro
ama-se a partir de Deus,
através de Deus,
mas não por amor de Deus;
amam-se por amor um do outro.
Isto é qualquer coisa de impossível.
Assim, só por meio de Deus,
é possível fazer-se.
O que dá pão
a um infeliz esfomeado,
por amor de Deus,
Cristo não lho agradecerá.
Recebeu já o seu salário
só com ter este pensamento.
Cristo agradecerá
àqueles que não sabiam
a quem davam de comer.
Simone Weil, Attente de Dieu(1957)
Extraído de À Porta do Farol Faz Escuro.
Textos escolhidos traduzidos e dispostos ritmicamente por Manuel Simões
Editorial A.O. - Braga
terça-feira, 5 de agosto de 2008
As caixas de Deus
(Autor desconhecido)
domingo, 3 de agosto de 2008
Na tua luz veremos a luz
À AURORA, LUZ QUE VEM DE FORA
A teologia é Sabedoria. Sabedoria do Amor, e não amor da sabedoria. A teologia é a Sabedoria de um Amor «crucificado», e só faz boa teologia «aquele que sabe que Outro morreu por ele», para usar a expressão forte de Soren Kierkegaard, e fazer memória dos mais firmes fundamentos paulinos de um amor condescendente e oblativo que nos preside e nos precede (Gl 2,20; 1 Ts 5,10). Assim, porque leva consigo esta intensa história de Amor, o teólogo fala calando e cala falando, rezando, amando, escutando, sempre em bicos de pés, no limiar do silêncio, sempre à escuta da Palavra criadora de Deus, som que nunca se ouviu, silêncio que nunca se calou (Paul Beauchamp). Premurosa pesquisa de sentido por debaixo da rumorosa espuma das palavras. O Verbo de Deus não anda na crista da onda de sons e de sílabas, sintaxe e fonética. O Verbo de Deus não faz vibrar o ar, é sem som e sem sombra. Não sendo a letra nem o som, Ele é o sentido dessa letra e desse som (Paul Beauchamp). E, de modo diferente da letra e do som, o sentido, que se recebe depois de um longo, lento e paciente trabalho de interpretação, ou de rajada, como uma iluminação, o sentido – dizia – não faz barulho. O sentido nunca fez barulho, nunca faz barulho.
2. A metáfora da Luz ou a modernidade
A metáfora da Luz – iluminismo – enche a modernidade. A luz da modernidade é a razão que quer iluminar todas as coisas, querendo assim compreender, com o que há de «prender» no compreender (Emmanuel Levinas), toda a realidade. Esta luz da razão produz identificação (redução do outro à esfera do «eu») e emancipação. Diz Karl Marx, em A Questão Judaica: «A emancipação é a recondução do mundo e de todas as coisas ao homem, para fazer do homem, não mais o objecto, mas o sujeito da sua própria história, do seu próprio destino». É assim que o homem se faz senhor, e não pastor (o pastor é frágil) (Martin Heidegger), e, como senhor, pode dizer: «Eu, eu, e mais ninguém» (Sf 2,15), ou «Eu, eu, e fora de mim não há ninguém» (Is 47,7 e 9), ou ainda «Eu fiz-me a mim mesmo» (Ez 29,3), e ainda «Sou rico, enriqueci, e não preciso de nada» (Ap 3,17), e mais recentemente «Eu penso, logo existo» («Cogito, ergo sum») (Descartes). Como se vê, este homem que se arvora em senhor absoluto, liquida ao mesmo tempo a ideia de criação (Deus) e a ideia de geração (mãe), pondo Deus de lado e esquecendo a sua mãe, e pensando que se põe sozinho no ser pelo seu próprio pensamento, mais ou menos homossexual (Adriana Cavarero). Este triunfo da identidade com o normal corolário da desmedida «identificação», redução de tudo ao «eu» e ao «mesmo», produz a solidão, que sou «eu» sozinho no meio de objectos, depois de reduzir os outros a objectos (Gn 2,18) (Abraham Joshua Heschel), e faz aparecer, pela primeira vez na história da humanidade, o ateísmo, e torna-se fonte de totalitarismos e violências inauditas. É o tempo da razão forte, do discurso lógico e ideológico, do logocentrismo, do sermão inflamado, do compêndio único. Em A Gaia Ciência, aforismo 125, Nietzsche descreve plasticamente esta realidade, quando faz sair, para a praça da cidade, em plena luz do dia, um homem louco, que leva na mão uma lanterna acesa, enquanto grita pela cidade: «Deus morreu; nós matámo-lo!» Foi assim que nos tornámos os senhores do mundo. Mas começa, entretanto, a cair a noite e a fazer frio. Não é o assassinato de Deus que apoquenta Nietzsche. Apoquenta-o a orfandade em que, com esse acto desmedido e de tresloucada audácia, caiu a humanidade. A frouxa luz da lanterna que exibe e com que em plena luz do dia pretende iluminar o mundo representa ironicamente a luz da razão, da nossa pequena razão, que quer sempre dominar o mundo, retê-lo na sua mão fechada.
3. A metáfora da Noite ou a pós-modernidade
A metáfora da Noite traduz a pós-modernidade, tempo em que a razão forte da modernidade se descobre como razão frágil e fragmentada, incerta e inquieta, ao sabor do slogan rápido e afectado. A democracia cede terreno à mediocracia. O sucesso não tem a ver com a razão e o discurso bem elaborado, mas com o dizer mais afectado, mais alto e mais rápido. A noite é um tempo de naufrágio. Partindo de uma cena do Rerum Natura, de Lucrécio, que narra os sentimentos de dor e de angústia, mas ao mesmo tempo de tranquilizante conforto, de um observador que, na praia, com os pés em terra firme, assiste a um navio que se afunda, lá longe, no mar, Hans Blumenberg define a modernidade como «naufrágio com espectador». Neste sentido, o homem moderno ainda pensava que tinha um pedaço de terra firme debaixo dos pés: a sua razão. Ao contrário, o homem pós-moderno perdeu já esse naco de terra e de razão e está dentro do navio que se afunda, sendo ao mesmo tempo náufrago e espectador. A única coisa que lhe resta é tentar construir, com os restos do navio desconstruído, um jangada que lhe permita sobreviver por algum tempo. A pós-modernidade, como a noite, é um tempo sem horizontes, em que cada um se fecha na concha da sua própria solidão, no seu pequeno grupo de amigos, no seu mundo fechado, à volta de umas quantas latas de cerveja, de pequenos rituais herméticos e esotéricos e correspondente vocabulário, à mistura com uns kicks emocionais, para logo resvalar outra vez cada um para o seu naco insensato de solidão, escuridão e indiferença. A questão já nem sequer é a falta de sentido. A questão é a ausência de perguntas pelo sentido. Estamos na «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, no tempo do exílio. E diz uma velha história rabínica que «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o velho rabino respondeu que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas. Os límpidos versos do poeta espanhol Antonio Machado dizem a mesma coisa de outra maneira: «En el corazón tenía/ la espina de una pasión;/ logré arrancármela un dia:/ ya no siento el corazón». A noite da pós-modernidade deixa-nos na indiferença e na insensibilidade, sem amor nem dor nem alegria, sem grandes sonhos, sem grandes causas, sem perguntas e sem esperas, perdidos no meio de fragmentos, agarrados ao nosso bocado de tempo, que há que fruir (Gianni Vattimo), de acordo com o horaciano carpe diem, documentado também na Sb 2,6-9, em Is 22,13 e em 1 Cor 15,32.
4. A metáfora da Aurora ou a Luz que vem de fora
Depois da luz e da noite, já se vislumbra no horizonte a metáfora da Aurora, luz que vem de fora. O canto de um galo rasga a noite, e Pedro sai para fora. E chora (Mt 26,74-75). O mais querigmático dos animais anuncia a Pedro que está a nascer o dia. O dia mesmo. O dia sem noite e sem série (Zc 14,7; Ap 21,23). É o que assinala o galo presente nos sarcófagos dos primeiros cristãos, donde passa para os campanários das Igrejas. O galo não se rege pelas horas do relógio, nem o seu canto pelas notas musicais. São partituras de sentido que trauteia, música nova, que vem de fora, e não entra pelo ouvido. Rombo na totalidade. Evento-Advento (Ereignis). O tudo, pelo simples facto de ser tudo, tem necessariamente de ser limitado, limitado com limite, mas sem limiar, porque o tudo, se é tudo, como é que pode ter ainda janelas para outra coisa?! A aurora é luz que vem de fora, rebenta o limite com a graça de um novo limiar. Claro convite a trans-gredir, de trans-gredior, dar um passo para além de. Transformar o limite num novo limiar. Evento-Advento para um novo Êxodo. A nova ordem é sair para fora de si, pois é de fora de ti que vem o sentido da vida. O rosto do Outro, incontrolável e inviolável, é a ordem nova e o sentido até agora insuspeitado (Emmanuel Levinas). Deus deixa-se encontrar por aqueles que não o procuram,/ manifesta-se àqueles que não se dirigem a Ele (Is 65,1; cf. Rm 10,20). Deus vem, portanto. Evento-Advento, Êxodo, escuta, encontro, espanto. «De outro modo que ser» (Emmanuel Levinas). Cogitor, ergo sum (Karl Barth). Amor, ergo sum. «Sou pensado, logo existo». «Sou amado, logo existo». Eu não sou incestuosa e tautologicamente filho de mim mesmo, como sugeria o cogito cartesiano. Um Amor me precede. Outras mãos me acolhem. Outras mãos se estendem para mim. Sair de mim. Do meu mundo, dos meus projectos, dos meus domínios e afazeres, do meu «eu» patronal, do meu esforço para permanecer no ser, o espinoziano conatus essendi. «Sair (yasa’) é o verbo emblemático do êxodo. Exprime uma saída sem retorno, que reclama a saída do bebé do ventre materno» (Ubaldo Terrinoni). Saída para uma radical confiança no outro que me precede e me acolhe. Pensar depois do Evento-Advento e do Êxodo significa, na verdade, «ser pensado», «ser amado».
5. Um percurso paradigmático
Recordamos aqui o caso sério de Martin Heidegger. Começou como estudante de teologia. A teologia é, no seu dizer, a disciplina da escuta humilde do silêncio de Deus. Decorridos dois anos, passou-se para a filosofia, que é a disciplina da interrogação radical («Por que há o ser e não o nada?»), da compreensão e do domínio da realidade. Fruto desta sua postura é o «Ser o Tempo» (Sein un Zeit), obra aparecida em 1926, que tem a sua tradução prática na sua adesão, em 1933, ao nacional-socialismo, como ideologia de domínio da realidade pela violência. O mundo esperou pela segunda Parte desta Obra, que nunca chegou a aparecer. Na verdade, Heidegger, reconhecendo a tragédia do projecto nacional-socialista, que quanto mais tentava subjugar o mundo, mais este lhe escorregava das mãos, reconheceu também o fracasso da sua filosofia, ao verificar que, se era possível dizer o ser das coisas (Dasein), já não era possível dizer o Ser (Sein) que está por detrás das coisas, pois não é possível dizer o Ser com as palavras da nossa linguagem, sempre demasiado frágeis e pequenas, capazes de dizer o fragmento, mas incapazes de dizer o abismo que sustenta e em que navega o fragmento. Por outras palavras: como dizer o «de outro modo que ser» com a linguagem do ser? Surge então, nos anos 1936-1938, em que escreve Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) [Contributos para a Filosofia (do Evento)] – obra publicada postumamente, em 1989 –, a chamada «reviravolta» (Kehre) heideggeriana, em que Heidegger se apercebe que pensar não consiste no orgulhoso exercício de interrogar, compreender e dominar o ser, mas na atitude humilde de escutar o Ser – passagem da interrogação para a escuta –, sendo que «escutar é deixar-se dizer», e falar não é dominar, mas simplesmente re-dizer o Dizer que escutámos. Imensa mudança de perspectiva e atitude. Da luz da nossa pequena razão, que em nós mora, que tudo pretende dominar para aprisionar, à luz da aurora, que vem de fora, para nos libertar.
6. «Na tua luz veremos a luz»
É o dizer luminoso do Sl 36,10. E Paulo pode ser o ícone do homem novo nascido dessa torrente de luz que nos cega e nos acende os olhos (Act 9,1-18; 22,6-16; 26,12-23). Um vasto mar de amor me precede, me envolve, me revolve e me devolve a mim. Eu dado a mim (Claude Bruaire). O homem bíblico tem de viver de mãos abertas (kaph). Só assim se recebe das mãos de Deus para ele estendidas (Is 65,2), das palmas das mãos de Deus em que está carinhosamente tatuado (Is 49,16). É de mãos abertas que Deus governa o mundo (Ecli 18,3). O Talmud, que é a sabedoria hebraica condensada em cinco milhões de palavras, refere exemplarmente que o punho cerrado representa a sabedoria do imbecil, que pensa que detém o mundo nas malhas da sua rede. E refere depois que, quando a mão inicia o movimento de se abrir, é como as pétalas de uma flor que se abre à vida. E acrescenta: é assim que floresce a inteligência. E, quando a mão se abre completamente, é a mão do sábio, que não retém nada, mas conhece o valor do encontro e do dom. E, cruzando agora as duas mãos abertas, ficamos com a imagem do «pássaro, livre, que voa». Processo inverso ao da filosofia, desde Zenão a Platão, Descartes, Fichte e Nietzsche, que apresentam o conhecimento como a captura ou compreensão que o sujeito faz do objecto. A verdade (a-lêtheia) é assim o desvelamento ou desocultação a que o sujeito submete o objecto, para dele se apoderar, representando-o e reproduzindo-o na mente, «adequação entre a coisa e a mente» (adequatio rei et intellectus), como referem Aristóteles e Tomás de Aquino. O último Heidegger, a que já aludimos, considera que esta concepção de verdade é a matriz da violência do Ocidente, e diz as coisas de outra maneira: não é o sujeito que captura e desoculta o objecto, mas é o objecto que sai do seu esconderijo e se oferece ao homem como dom, como evento (Ereignis). Por isso, a função do sujeito já não é capturar e dominar com o que há de «prender» no compreender, mas acolher com espanto, alegria e reconhecimento. A Bíblia e a teologia estão claramente do lado do último Heidegger. Mas vão muito mais longe, trans-gredindo-o, pois não se trata de objectos que se entregam ao homem, mas de um Tu, o Tu de Deus, que, por amor, vem até ao homem e a ele se entrega por amor, debruçando-se sobre ele e abaixando-se até ao ponto de lhe lavar os pés e a alma (Von Balthasar), de cuidar dele, de o alimentar, de lhe afagar o rosto, de o ensinar a andar: «Fui Eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era Eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos Eu os atraía./ Com laços de amor,/ Eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Os 11,3-4). Aí está a verdade (’emet) como confiança (’emunah), derivados de ’aman, que significa segurar, firmar, fiar-se. É o mundo da mãe e do bebé, da aleitação, da lalação, da palavra antes das palavras.
7. A metáfora da tartaruga ou a transgressão
A tartaruga acaba de deixar o seu esconderijo para um passeio nocturno. O sapo vê-a sair de casa àquela hora, e adverte-a: «A esta hora não é muito aconselhável sair, tartaruga». Mas a tartaruga continua, e, arriscando um passo mais longo, vê-se virada de patas para o ar, sobre a sua própria couraça. O sapo exclama: «Eu bem te avisei, tartaruga; é uma imprudência sair a esta hora; morrerás aí!» «Bem sei», respondeu a tartaruga com um olhar entre a malícia e a delícia; «Bem sei, mas é a primeira vez que estou a ver o céu estrelado!» A tartaruga ensina que não nos podemos contentar em viver mais ou menos tranquilamente com a cabeça enterrada na areia do céu ou da terra. Deduzir o céu da terra, ou o Último do penúltimo, é apenas areia. Areia é trocar o Último pelo penúltimo. O penúltimo é o mundo dos meios sem fins, da razão instrumental (Max Horkheimer), das pessoas como objectos, que se movem no tempo como os objectos se movem no espaço. Um passo em frente. É imperioso e urgente pensar. Trans-gredir. «Pensar é trans-gredir» (Denken heisst überschreiten) (Ernst Bloch). Sair de casa como a tartaruga, extasiar-se e desviar-se do caminho como Moisés (Ex 3,3-4). É o céu que vem interromper curso e percurso. O Último interrompe o penúltimo, mundo desencantado (Max Weber), outra vez visitado, amado, encantado. Pensar é trans-gredir, pensar é ser pensado, amado. A luta e o amor. «Tu és bela, minha amada,/ terrível como um exército em ordem de batalha» (Ct 6,4). Para além dos meios. Amor sem luta é posse de um objecto. O amor verdadeiro é agónico. Não é por acaso que agápê (amor) e agôn (luta) têm a mesma etimologia. Paradoxo do amor: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lc 9,24). Aí está o verdadeiro ícone do amor, Cristo, que não se salvou a si mesmo para me salvar a mim, morrendo por amor de mim, trans-gredindo assim a morte. Ícone do amor. Ícone também da trans-gressão, do advento e do êxodo: sai de Deus, sai de si, sai para Deus.
8. A partir da esperança
Paulo diz aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo (elpída mê échontes kaì átheoi en tô kósmô)» (Ef 2,12). Este marcador Paulino atravessa a Encíclica Spe salvi, de Bento XVI. Sem Deus no mundo, habitação desabitada, não há esperança. Pode haver apenas pequenas deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo. No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», sempre assente nos nossos calculismos e exercícios racionais, pequenas deduções. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã, de que fala Paulo (e Bento XVI), é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança) (Rm 4,18). É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah, e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estica para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso, não abaulado, e seguro entre duas mãos, a de Deus e a nossa. Única maneira de se poder atravessar, com segurança e confiança, o vau da morte. Paulo transfere esta imagem do «fio» ou da «corda» para o mundo e para o homem, e coloca-os nesta tensão esperante, através do recurso ao nome apokaradokía (Rm 8,19; Fl 1,20), de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar] que só ele usa no NT, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo. Apokaradokía traduz a atitude de quem alonga o pescoço o mais possível para tentar ver o que ainda não se vê, atitude muito próxima da traduzida por apekdéchomai (Rm 8,25), de apò-ek-déchomai, que implica uma forte conotação de recepção, tensão para receber a salvação de Deus, tensão para o dom, pois um dom, não o podemos produzir com as nossas mãos; só o podemos receber de outras mãos. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude amante de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos que Alguém espera por nós. Habitação habitada, êthos e éthos. É Deus que constrói a casa, a habitação (êthos); é dele que recebemos o hábito, a ética (éthos).
António Couto
sábado, 2 de agosto de 2008
Interpelação-Resposta
Caravaggio - Vocação de Mateus
“Como vemos nós que este gesto realiza, de facto, uma interpelação, que essa interpelação origina uma vocação e, portanto, se dirige a um apenas, que o identifica e o reconhece? Nós vemo-la – a esta interpelação – manifestar-se no olhar de Mateus, infinitamente mais do que no gesto do próprio Cristo; porque Mateus, que levanta os olhos da mesa e se desvia das moedas, não se apercebe tanto de Cristo, mas sim do seu olhar, que o atinge; … Então – e nisso está o momento decisivo – apanhado no cruzamento dos olhares, Mateus tenta, com a sua mão esquerda, o gesto de se designar a si mesmo, em silenciosa resposta à interpelação, que não podia ser dita, nem escutada, e pergunta, ou melhor, anuncia: «Eu?» O que faz ver a vocação, isto é, a interpelação duplamente invisível, não resulta de um sinal visível (de facto, sempre indistinto), mas da própria resposta”.
Jean-Luc Marion, Étant donné, Paris 1997, 392-393.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Crer é razoável
Moretto de Brescia, FéA fé não é o mesmo que perder a confiança na razão, ao ver os limites do nosso conhecimento; não é a entrega ao irracional, em face dos perigos de uma razão meramente instrumental. A fé não é também expressão de cansaço ou de fuga, mas sim afirmação corajosa do ser, e abertura à grandeza e complexidade da realidade. A fé é um acto de afirmação. Apoia-se na força de um novo sim que o homem se torna capaz de pronunciar em virtude da iniciativa com que Deus vai ao seu encontro.
Precisamente na situação hodierna, de aberto e vasto ressentimento contra a racionalidade da técnica, parece-me importante evidenciar a razoabilidade essencial da fé. Nem a releitura crítica, desde há tempos em curso, poderia legitimamente censurar à modernidade a confiança na razão enquanto tal, mas apenas a redução do conceito de razão, visto que esta redução é que acabou por abrir a porta às ideologias irracionais. O mistério, tal como o alcança a fé, não é o irracional, mas sim a máxima profundidade da razão divina, que nós, com a nossa fraca vista, não temos capacidade para penetrar. Sempre foram e continuam a ser afirmação fundamental da fé as palavras com que João, retomando e aprofundando a narrativa da Criação contida no Antigo Testamento, abre o seu Evangelho: “No princípio era o Logos”, a razão criadora, a energia da inteligência de Deus, que enche de significado todas as coisas. Só poderemos compreender rectamente o mistério de Cristo a partir deste início, em que a razão se manifesta também como amor.
A primeira afirmação da fé diz-nos, portanto: tudo o que existe é pensamento feito realidade. O Espírito criador é a origem e o princípio que funda todas as coisas. Tudo o que existe é, na origem, racional, porque procede da razão criadora.
Novamente nos encontramos perante a oposição fundamental entre materialismo e fé. O credo do materialismo postula que ao princípio se encontra o irracional, e que só as leis do acaso produziram a racionalidade sobre a base da irracionalidade. A razão é, pois, um subproduto da ausência de razão, e a sua estrutura, assim como as suas leis, são simplesmente resultado de combinações produizdas por uma instância alheia, privada de conteúdo ético ou estético. Assim o homem se torna um adepto da engrenagem do mundo que ele faz progredir de acordo com os seus fins. E o irracional continua a ser a autêntica potência originária.
A fé ensina exactamente o oposto: o Espírito é a origem criadora de todas as coisas, e por isso elas têm em si uma razão não derivada de si mesmas e que as ultrapassa infinitamente, embora constituindo a sua mais íntima lei. A razão criadora, que dota as coisas de uma racionalidade objectiva, de uma lógica oculta e de uma ordem intrínseca, é ao mesmo tempo razão moral e Amor.(...)
Perante a actual crise da razão, é bom que volte a brilhar claramente esta natureza essencialmente razoável da fé. A fé salva a razão, até porque a abraça em toda a sua amplitude e profundidade e a protege contra as tentativas para a reduzir àquilo que pode ser verificado experimentalmente. O mistério não se apresenta como inimigo da razão; pelo contrário, salva e defende a íntima racionalidade do ser e do homem.
Cardeal Ratzinger, A Igreja e a Nova Europa
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Pausa

PAUSE
Ça serait une pause
Entre deux sonneries
Quand le bruit se repose
Un soupçon d'accalmie
Ça serait un silence
Au milieu du fracas
La minute d'absence
Où on ne répond pas
Un petit temps d'arrêt
Siou plait
Je crois qu'il me faudrait
Juste un peu de secret
Juste un peu de secret
{Refrain:}
Faire un palier
Rien qu'un petit palier
Grappiller cet instant
Pour mettre innocemment
Pour mettre impunément
Un peu de flou dans mon emploi du temps
Ça serait un mensonge
Entre deux vérités
Une question qui plonge
Avant d'être posée
Ça serait une fable
Au milieu des discours
Une fuite improbable
Un ultime recours
Même si ça dépayse
Oh please
Il faudrait que je dise
Juste quelques bêtises
Juste quelques bêtises
{au Refrain}
Ça serait un scaphandre
Au milieu des requins
Quand la chair est si tendre
Et l'habit si mesquin
Ça serait une esquive
A ce monde voyeur
La défense passive
Armure du rêveur
Sans beaucoup d'exigence
Je pense
Qu'il me faudra d'urgence
Juste un peu de silence
Juste un peu de silence
{au Refrain}
Eduardo Jorge Madureira Lopes
terça-feira, 15 de julho de 2008
Canto litúrgico

Não sabemos como há-de ser feita nem quem deverá tomar a iniciativa de fazê-la, mas é urgente uma revisão do canto litúrgico. É necessário reflectir sobre o que de bom e de menos bom se foi fazendo, para melhorarmos o que houver a melhorar.
Antes de mais, convém deixar claro que podemos estar profundamente unidos com Deus enquanto cantamos um cântico sem qualidade. Deus não é propriamente um crítico musical ou literário. Ele olha, antes de mais, para o amor com que fazemos as coisas. Sabemos, porém, que um belo canto ajuda o homem a elevar-se para Deus. Pelo contrário, a má qualidade, com muita frequência, não só distrai as pessoas da oração como até as pode deixar à beira de um ataque de nervos. Se Deus é beleza, as nossas linguagens da beleza, que são as linguagens artísticas, serão até as mais adequadas para falarmos com Ele. Sempre assim o entenderam os homens de todos os tempos e de todas as culturas. Por isso nos devemos esforçar por cantar belas melodias, belos textos, e cantá-los o melhor que soubermos.
1. Temos encontrado muita diversidade de estilos nas celebrações: música country, música pop, música rock, gospells, bossa nova, samba, música de westerns, com banjo em fundo e harmónica de boca fazendo solos, o que nos faz lembrar cow-boys afastando-se a cavalo nas imensas pradarias americanas. Já encontrámos interpretações muito próximas do heavy metal, assim como coisas que podiam ser cantadas pelo Marco Paulo ou pelo Tony Carreira. Já ouvimos meninas a cantar ao estilo da Ágata e dos outros cantores de música pimba. Já ouvimos cantar em italiano. Ainda não encontrámos nenhum exemplo de rap, mas não tardará muito. Frequentes vezes, demasiadas vezes, o estilo dos cânticos e da música que os acompanha leva-nos para um ambiente de discoteca ou de festa de cerveja. Não pode ser.
A justificação que vulgarmente se dá é a de que tal género de música atrai mais os jovens. Poderá ser verdade. No entanto, convém recordar que os jovens não são os únicos que participam na liturgia. Participam pessoas de todas as idades, crianças, pessoas menos jovens, pessoas de idade mais avançada. E muitas das coisas que se cantam são inquestionavelmente inadequadas para uma assembleia numerosa e heterogénea. Não me refiro apenas às melodias, frequentemente afectadas, mas também ao andamento, por exemplo. Os cânticos litúrgicos não podem ter um andamento demasiado rápido nem sincopado. São inadequados para uma assembleia onde podem estar centenas de pessoas e que, por natureza, é mais lenta a cantar. Pode haver momentos em que o coro ou o solista a represente, sem dúvida. Acontece, porém, demasiadas vezes, que a assembleia permanece muda durante toda a celebração.
2. Parece-nos inconveniente o lançamento constante de cânticos novos. É óptimo que haja variedade. No entanto, o excesso faz com que as pessoas tenham dificuldade em fixar tudo o que de novo vai aparecendo.
3. Se vamos, por acaso, a outra igreja que não a da nossa paróquia; se participarmos na eucaristia numa outra cidade, corremos o risco de ficar calados porque os cânticos são quase sempre diferentes dos que sabemos. Devia haver um reportório que toda a gente conhecesse. Não sabemos como se há-de resolver a situação, mas, ao fim de todos estes anos, já deve haver um numeroso grupo de melodias, de reconhecida qualidade, que pudesse ser adoptado por toda a igreja portuguesa. E, já agora, nele deveriam figurar cânticos mais antigos, alguns belíssimos, que deixaram de se ouvir. Foi uma pena.
4. Nenhum cântico deveria ser cantado sem a aprovação de uma comissão que, aliás, julgo existir, e sob cuja responsabilidade se publica uma revista de música sacra. A justificação é simples: teríamos a garantia de um mínimo de qualidade.
5. Nenhum dos textos litúrgicos fixos– não sei se é assim que se diz - que são cantados durante a Eucaristia deveria poder ser substituído por outros. Por exemplo: não se deveria substituir nunca o texto do “Cordeiro de Deus” ou do “Santo”. A razão é simples: são de uma beleza e de uma profundidade espiritual de tal maneira grandes, que dificilmente poderão encontar-se outros equivalentes.
7. Deveriam ser banidos da liturgia cantos em tom menor. Bem sabemos que há momentos - os cânticos penitenciais, por exemplo – em que o tom menor parece o mais adequado. Contudo, mesmo nesses casos, deveriam evitar-se melodias que mais parecem convidar-nos à depressão ou ao desespero suicida do que à sentida penitência. A liturgia é alegria íntima e serena, não tristeza melancólica.
8. Deveriam escolher-se cânticos que não façam subir a voz a notas muito agudas. Brincando um pouco, alguns nem o Pavarotti seria capaz de cantar. É problema nem sempre de fácil resolução porque a maior parte dos acompanhantes no órgão não são capazes de fazer a transposição para um tom mais baixo. Havia em tempos harmónios em que era possível movimentar o teclado para a esquerda ou para direita, precisamente para se poder descer ou subir o tom. Não sei se ainda existem.
9. E já que falámos do acompanhamento dos cânticos no órgão, gostaríamos de deixar aqui algumas observações:
- Por favor, não se utilize o registo “Trémulo”. Não sabemos por que razão, em quase todas as igrejas, põem o órgão a tremelicar, como se estivesse com problemas de corrente eléctrica ou atacado de delirium tremens. Revela um péssimo gosto. Ficamos imediatamente com a sensação de estar num salão de dança.
- Parece mil vezes preferível cantar sem acompanhamento do que ouvir um organista impreparado. Ora põe o órgão num volume que abafa a voz dos solistas e da assembleia, o que ainda é o menos, ora não acerta nas notas nem tem a mínima noção de harmonia nem de tonalidade. O canto está construído num tom e ele acompanha noutro ou até em nenhum. Tudo isto se faz com a maior das boas intenções, certamente, mas não deve haver maneira mais eficaz de afastar pessoas da missa do que a inépcia de alguns acompanhantes.
- Quem diz órgão diz outros instrumentos. Não nos custa nada admitir que se utilizem na liturgia outros instrumentos, embora alguns nos pareçam completamente inadequados. No entanto, o mínimo que se exige é que sejam bem tocados e não abafem a voz da assembleia. A voz humana é o mais importante de todos os instrumentos. Quando ela intervém, todos os outros devem baixar o volume.
- Dispensaríamos perfeitamente a bateria em cerimónias litúrgicas. Não acrescenta absolutamente nada nem ao canto nem à música. Pelo contrário, só atrapalha, impondo uma rigidez de compasso e um ruído de fundo incompatíveis quer com a maleabilidade expressiva dos cânticos, quer com a natureza de uma assembleia numerosa e heterogénea que tende a cantar lentamente. Além disso, é perfeitamente erróneo pensar que um cântico tem mais ritmo só porque é acompanhado por uma bateria.
- Já ouvimos, em algumas cerimónias, batuques discretamente percutidos, aliás. Não custa nada admitir que se utilizem, mas parece-nos que ficariam muito melhor numa celebração litúrgica africana, por exemplo.
São estas as observações que hoje temos para apresentar. Oxalá possam contribuir para a solução de um problema que necessita de solução urgente.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Literatura e Sagrado (4)

Tal como outras artes, a literatura actual dá voz à plangente interrogação existencialista do homem, desamparado na sua incomunicabilidade e solidão, bem como na irredutibilidade de ser confrontado perante a inexorabilidade da morte. Através da expressão artística, reencontram-se o sagrado e o estético: o ser humano eleva-se de forma transcendente; e recupera as marcas perdidas do homem religioso. A noite do mundo é iluminada pelo brilho inquietante e eterno da palavra inspirada.
2. A título de breve ilustração dos pensamentos anteriores neste blog – sobre as manifestações de sacralidade contidas na expressão literária – e sem desnecessários comentários críticos, leiam-se dois poemas de Ana Luísa Amaral*, retirados do seu mais recente livro de poesia:
Um anjo aqui desceu (terá descido?),
dizendo que o silêncio humano outrora
fazia agora parte do divino,
e o que o templo maior, rasgado o pano,
tinha passado a ser culto de nós.
Do éter rarefeito veio a voz,
queixando-se das sombras da cidade:
que o mundo era só verde, e que o azul
só o azul do céu, com letra humana
gravada numa mesa de madeira.
Um anjo desceu (há provas mais)
e aqui ficou, exausto das canseiras
de ser mediador entre dois mundos,
de ter em dois segundos que voar
e mergulhar depois em três segundos.
E aqui ficado, o anjo adormeceu,
sonhando com estações e com instantes,
aos poucos esquecendo tempos dantes
e a água densa do eterno mar.
E quando se rasgou o tempo outro
e ele acordou, refeito e bocejante,
viu que era bom ter nome, e sede, e fome,
cinco dedos nas mãos – algum olhar.
OS TEARES DA MEMÓRIA:
MNEMÓSINE E SUAS FILHAS
Desejava esquecer, mas elas não me deixam:
chegam com seu tear e sua mão cruel,
e sobre mim ensaiam um cansaço
que há séculos lhes tem sido alimento
Têm dentes ferozes e poderosas unhas
com que tocam a flauta e festejam o fuso,
e uns olhos muitos belos, com íris poderosas,
de sobressair ondas, de desesperar ventos.
E as fontes enganosas onde encontram guarida
tingem-se com as cores da sombria memória
Não me deixam esquecer: só me trazem
a história dentro da própria história,
desejo incontrolável de contra mim ficar,
a horas muito breves, de desespero fundo,
a falar nem de nada, desejando por dentro
deixar de me sentir, ou então sentir tudo.
Não me deixam esquecer, e o seu tear agudo:
herança dessa mãe que sobre elas pousou,
que as fadou frias, belas, e ao gerá-las assim,
lançou no meu olhar a memória do mundo.
Pertencem-lhes as fontes, tão falsas e funestas
como funestos são os seus gritos sem som,
delas fazem brotar as águas mais avessas
com algas que me entrançam palavras e cabelos.
E eu que queria esquecer, viver num outro mar,
atravessar a nado os pinheiros mais altos,
sou condenada a dar-lhes o alimento azul
de que elas se alimentam: um cansaço de séculos.
Sou condenada a ver para além deste tempo,
através dos seus olhos de poderosa luz,
e as flautas que elas tocam e o fuso que festejam
não são flautas só fusos, mas lanças e muralhas.
Com elas me recordo, por elas me relembro
e invade-me a lembrança, exasperada, impura.
Desejava esquecer, mas elas não me deixam,
e a memória do mundo: uma pesada herança,
legado que não devo deixar a mais ninguém,
que não posso gastar conforme me apetece,
porque elas o governam em mil sabedoria:
obrigam-me a usá-lo contrário ao meu desejo,
e se o desejo às vezes, desviam-no de mim.
É sua mãe cruel que as governa e a mim.
E todas enredadas nesta teia de espelhos
sofremos igual sorte, temos o mesmo fim,
partilhamos da mesma vontade de esquecer.
Mas não o deixa ela, nem o permite a morte –
* Breve nota informativa:
terça-feira, 1 de julho de 2008
António Vieira (VI)
Torpe coisa é, e verdadeiramente vergonhosa para um cristão, se o primeiro raio do sol o achar na cama, e não prostrado aos pés de Cristo, seu criador e redentor. As primeiras criaturas que com suas vozes nos injuriam e envergonham, entre aquelas que o mesmo Senhor criou, mas não remiu, são as aves. Que avezinha há, ou tão pintada como o pintassilgo, ou tão mal vestida como o rouxinol, que não rompa o silêncio da noite, com dar, ou cantar, as graças a seu criador, festejando a boa vinda da primeira luz, ou chamando por ela? As flores que anoiteceram secas e murchas, porque carecem de vozes, posto que lhe não falte melodia para louvar a quem as fez tão formosas, ao descante[1] mudo dos cravos e das violas, como são as Madalenas do prado, também declaram os seus afectos com lágrimas. As nuvens bordadas de encarnado e ouro, os mares com as ondas crespas em azul e prata, as árvores com as folhas voltadas ao céu, e com a variedade do seu verde natural então mais vivo, as fontes com os passos de garganta mais cheios, e a cadência mais sonora, as ovelhinhas saindo do aprisco, e os outros gados mansos à liberdade do campo, os lobos e as feras silvestres recolhendo-se aos bosques, e as serpentes metendo-se nas suas covas, todos, ou temendo a luz ou alegrando-se com sua vista, como à primeira obra de Deus, lhe tributam naquela hora os primeiros aplausos (...).
Desperta, ó homem indigno, aos brados de todas as criaturas; abre os olhos e vê a que madrugas e a que não madrugas. Deixadas as madrugadas mecânicas, como as do oficial vigilante que madruga para bater e malhar o ferro, obrigando também a madrugar o ar e o fogo, os que professam vida e acções mais nobres para que madrugam? Madruga o Matemático, para observar as estrelas, antes que lhas esconda o sol; madruga o soldado para vigiar o seu quarto[2], ou na muralha ou na campanha, ou no bordo da nau; madruga o estudante sobre o livro que tantas madrugadas custou ao seu autor quantas são as letras, muitas vezes riscadas, de que está composto; madruga o requerente, madruga o caminhante, madruga cercado de galgos o caçador (...). Quanto corta pelo sono o adúltero? Quanto corta pelo sono o vingativo? Quanto corta pelo sono o ladrão? Quanto corta pelo sono o taful[3]? Quanto corta pelo sono o invejoso, o ambicioso e, mais vigilante que todos, o avarento e cobiçoso? Os Judeus adoraram o bezerro de ouro, os cristãos adoram o ouro ainda que não pese tanto como o bezerro. Do ouro tomou nome a aurora, e esta é a despertadora que os não deixa dormir e faz vigiar, maquinando subtilezas, traças, enganos, traições, e sacrificando ao torpe, vergonhoso e brutal ídolo do interesse, o descanso, a razão, a vida, a honra, a consciência, a alma.
António Vieira, Sermão da Ressurreição de Cristo Senhor Nosso.
[1] Canto ao desafio ou em dueto.
[2] Período de tempo em que uma sentinela está de vigia. Já os Romanos dividiam as vigias da noite em quatro quartos, cada um com três horas.
[3] Viciado no jogo.
sábado, 28 de junho de 2008
S. Paulo e os estrangeiros
É nele e nos que, como ele, vêm de longe para tentar que a vida seja um pouco melhor que penso neste sábado em que, com o propósito de celebrar os dois mil anos do nascimento do apóstolo Paulo, se inicia o Ano Paulino e no mesmo dia em que se ficou a saber, através do Diário do Minho, que o Fórum de Organizações Católicas para a Imigração, reunido no dia anterior, condenou uma directiva que o Parlamento Europeu aprovou recentemente relativa à deportação de imigrantes em situação ilegal. Os imigrantes pobres (porque é sempre desses que se trata) que estejam à espera de expulsão, com a nova legislação, podem ficar detidos durante um período de um ano e meio e, mesmo que não sejam criminosos, podem ser enviados para estabelecimentos prisionais comuns.
Defendendo que as medidas de controlo dos fluxos migratórios devem levar em conta o apoio e o compromisso dos países europeus em relação ao desenvolvimento dos países de origem dos imigrantes, o Fórum, que reúne mais de uma dezena de organismos católicos, garante que a directiva não protege os direitos fundamentais dos imigrantes – “pessoas que se deslocam para construir ou reconstruir um projecto de vida” – e ignora os dramas humanos que tantas vezes os acompanham.
É na primeira carta que S. Paulo endereça à comunidade cristã da próspera cidade de Corinto, escrita durante a terceira viagem missionária do apóstolo, que se encontra aquele que será, talvez, um dos mais citados e comentados extractos dos seus escritos.
É nessa passagem que Paulo se afirma ao serviço de todos: “De facto, embora livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei – embora não estivesse sob a Lei – para ganhar os que estão sujeitos à Lei; com os que vivem sem a Lei, fiz-me como um sem Lei – embora eu não viva sem a Lei de Deus porque tenho a lei de Cristo – para ganhar os que vivem sem a Lei. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo”.
A linguista, psicanalista e escritora Julia Kristeva recorda este escrito “cosmopolita” do apóstolo Paulo em Étrangers à nous-mêmes (Paris: Fayard, 1988). Observa esta mulher, que se assume como cidadã europeia, de nacionalidade francesa, de origem búlgara e de adopção americana, que “Paulo adopta, desenvolvendo-o ao máximo, um traço essencial da espiritualidade própria deste mundo de estrangeiros: a hospitalidade. Facto notável: pratica-a gratuitamente – o clérigo não mendiga nem faz carreira na religião, mas trabalha com as suas próprias mãos. Mais ainda: o estrangeiro sendo o Cristo ele mesmo, recebê-lo é ser recebido em Deus”.
Julia Kristeva afirma que o que conta para Paulo é o povo renovado para formar uma entidade original, a Igreja. “O messianismo dos judeus transforma-se em messianismo incluindo toda a humanidade: a Ecclesia será a universalidade do ‘povo’ para além dos povos, recolhidos ao isolamento e à solidão do deserto para receber a palavra de uma nova Aliança”.
“Arrancar o corpo ao coração e o abatimento ao entusiasmo é uma verdadeira transubstanciação, que Santo Agostinho chama precisamente peregrinação”, nota Julia Kristeva no ensaio referido, acrescentando que, embora o estrangeiro, transformado em peregrino, não resolva os seus problemas sociais e jurídicos, encontra, na civitas peregrina do cristianismo, ao mesmo tempo um élan psíquico e uma comunidade de entreajuda que parecem ser a única saída para o seu desenraizamento, sem rejeição, nem assimilação nacional.
O estrangeiro, sublinha Julia Kristeva, “começa quando surge a consciência da minha diferença e termina quando nos reconhecemos todos estrangeiros”. Peregrinos, portanto, e hóspedes sobre a terra.
[Eduardo Jorge Madureira Lopes,
texto a publicar amanhã no Diário do Minho]
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Como as estrelas

No texto colocado neste Blog, no passado dia 19, incitava-nos o P. António Vieira: “Aprendamos do céu o estilo da disposição (das palavras) e também as palavras.
Como hão-de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e claras”, como queríamos também as almas. Como são as vidas daqueles que encontram verdadeiro sentido para o seu viver e conseguem ser luz, sem nunca terem desejado brilhar. Aqueles para quem, como diz Teixeira de Pascoaes:
“Viver é queimar a vida,
transformá-la em calor
e claridade.
Viver e arder
é o mesmo fenómeno.
Como distinguir as almas
das estrelas?
Brilham no mesmo céu
anoitecido,
no mesmo fundo
tenebroso,
impenetrável ao pensamento
dos filósofos.”
[Carminda Sousa Marques]
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Eucaristia, dom de Deus para a vida do mundo

«Temos necessidade de tomar consciência que o mistério eucarístico é o dom que Deus faz dele mesmo para alimentar o coração do homem. Esta relação com Deus é-nos dada para ser partilhada. Daí vem o cuidado dos cristãos por todas as fomes humanas. Não somente a fome ligada à crise alimentar do momento presente, mas também a fome da Palavra de Deus, a fome de justiça, de afecto, de respeito por todas as vidas.
Os cristãos que experimentam o encontro com o Ressuscitado na Eucaristia são portadores de uma missão que consiste em colaborar com Deus para socorrer os seus irmãos e irmãs. São convidados a fazê-lo na comunhão que Deus quer realizar com toda a humanidade.
A mensagem do congresso é pertinente, quer a nível local, quer mundial.
O Congresso [Eucarístico do Québec] vai contribuir para aprofundar a ligação entre compromisso e oração. O compromisso social não é mais que uma consequência da Eucaristia: é o sinal de uma coerência com o próprio compromisso de Deus. É Deus que se dá e nos insere no seu dom. A acção junto dos mais desfavorecidos faz, pois, parte da relação que Deus quer ter com a humanidade».
Carlos Nuno Vaz
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Da beleza da morte à morte da beleza…
“O mito moderno do progresso, tão grato aos «grandes relatos» ideológicos, tende a fazer da morte uma etapa marginal na história do indivíduo totalmente assimilado à causa, sacrificado ao triunfo da ideia: a morte é ignorada, camuflada, escondida, fátua «flor negra» sobre os prados do absoluto…
Este «declinar da morte» conjuga-se também com o «declinar da beleza»: o belo é transformado em espectáculo, reduzido a bem de consumo, de modo a que dele seja exorcizado o desafio doloroso e os humanos sejam ajudados a já não pensar, a evitar a fadiga e a paixão do verdadeiro, para se abandonarem ao imediatamente desfrutável, calculado com o único interesse do consumo imediato. É o triunfo da máscara, em detrimento da verdade; é o nihilismo da renúncia a amar, onde se busca fugir da dor infinita da evidência do nada, fabricando máscaras tranquilizadoras, por detrás das quais se oculta o carácter trágico do vazio. No grande mercado da «aldeia global», parecem desaparecer os sinais da beleza: a máscara da propaganda parece triunfar em todas as frentes, a respeito da seriedade trágica da interrupção sem defesa da verdade e da beleza últimas. O «eclipse da morte» revela-se inseparável da «morte da beleza»: a fragilidade do fragmento não parece aguentar o peso do Todo que aí irrompe…”
Bruno Forte, En el umbral de
domingo, 22 de junho de 2008
Ode ao pão

com farinha
água
e fogo
te levantas.
Espesso e leve,
reclinado e redondo,
repetes
o ventre
da mãe,
equinocial
germinação
terrestre.
Pão,
que fácil
e que profundo tu és:
no tabuleiro branco
da padaria
estendem-se as tuas filas
como utensílios, pratos
ou papéis,
e de súbito a onda
da vida,
a conjunção do germe
e do fogo,
cresces, cresces
de súbito
como
cintura, boca, seios,
colinas da terra,
vidas,
sobre o calor, inunda-te
a plenitude, o vento
da fecundidade,
e então
imobiliza-se a tua cor de oiro,
e quando já estão prenhes
os teus pequenos ventres
a cicatriz escura
deixou sinal de fogo
em todo o teu doirado
sistema de hemisférios.
Agora,
intacto,
és
acção de homem,
milagre repetido,
vontade da vida.
Ó pão de cada boca
não
te imploraremos,
nós, os homens,
não somos
mendigos
de vagos deuses
ou de anjos obscuros:
do mar e da terra
faremos pão,
plantaremos de trigo
a terra e os planetas,
o pão de cada boca
de cada homem,
em cada dia
chegará porque fomos
semeá-lo
e fazê-lo,
não para um homem, mas
para todos,
o pão, o pão
para todos os povos
e com ele o que possui
forma e sabor de pão
repartiremos:
a terra,
a beleza,
o amor,
tudo isso
tem sabor de pão,
forma de pão,
germinação de farinha,
tudo
nasceu para ser compartilhado,
para ser entregue,
para se multiplicar.
Por isso, Pão,
se foges
da casa do homem,
se te escondem,
se te negam,
se o avarento
te prostitui,
se o rico
te armazena,
se o trigo
não procura sulco e terra,
pão,
não rezaremos
pão,
não mendigaremos,
lutaremos por ti com outros homens,
com todos os famintos,
por todos os rios, pelo ar
iremos procurar-te,
a terra toda repartiremos
para que tu germines,
e connosco
avançará a terra:
a água, o fogo, o homem
lutarão junto a nós.
Iremos coroados
de espigas,
conquistando
terra e pão para todos,
e então
também a vida
terá forma de pão,
será simples e profunda,
inumerável e pura.
Todos os seres
terão direito
à terra e à vida,
e assim será o pão de amanhã,
o pão de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será o produto
da mais longa e dura
luta humana.
Não tem asas
a vitória terrestre:
tem pão sobre os seus ombros,
e voa corajosa
libertando a terra
como uma padeira
levada pelo vento.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
António Vieira (V)

O mais antigo pregador que houve no mundo foi o Céu. Caeli enarrant gloriam Dei, et opera manuum eius annuntiat firmamentum, diz David.[1] Suposto que o Céu é pregador, deve de ter sermões, e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo David: tem palavras e tem sermões, e mais muito bem ouvidos: Non sunt loquellae, neque sermones, quorum non audiantur voces eorum[2]. E quais são estes sermões e estas palavras do Céu? As palavras são as estrelas: os sermões são a composição, a ordem, a harmonia, e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do Céu com o estilo de pregar que Cristo ensinou na terra! Um e outro é semear: a terra semeada de trigo; o Céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia[3], e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem[4]; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o Céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está Branco, de outra há-de estar Negro; se de uma parte está Dia, da outra há-de estar Noite; se de uma parte dizem Luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem Desceu, da outra hão-de dizer Subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário?[5] Aprendamos do Céu o estilo da disposição, e também o das palavras. Como hão-de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação, muito distinto, e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo: as estrelas são muito distintas, e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto: tão claro que o entendam os que não sabem; e tão alto que tenham muito que entender nele os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para a sua lavoura, e o mareante para a sua navegação, e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico, e o mareante, que não sabem ler nem escrever, entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: estrelas, que todos as vêem, e muito poucos as medem.
[1] Os Céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos(Sl 18,2).
[2] Não são palavras nem discursos cuja voz não se ouça (Sl 18,4)
[3] Todo o sermão se baseia na parábola do pregador como semeador, e da palavra como semente. Um pouco antes dissera Vieira que “o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte”.
[4]Juízes 5,20.
[5] Crítica ao estilo culto da pregação barroca.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Literatura e Sagrado (3)
O ser humano é um animal simbólico por natureza. E a própria expressão artística não é inteligível fora do contínuo recurso a um certo imaginário – conjunto de mitos, imagens e modelos de representação humana e cultural do mundo. Essas estruturas antropológicas do imaginário impregnam todas as criações e as interpretações humanas. E nem certos racionalismos mais estreitos conseguiram diminuir a importância desse imaginário enformador de sentido.
Ora, no âmbito desse imaginário colectivo, a linguagem humana, sobretudo na sua dimensão artística, está repleta de referências e manifestações hierofânicas, de ressonância transcendental. É, pois, neste sentido (acentuado por Mircea Eliade, em O Sagrado e o Profano) que devemos falar no princípio de sacralidade aplicado à literatura:
“A fim de indicarmos o acto da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo (...) exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela. Pode dizer-se que a história das religiões – desde as mais primitivas às mais elaboradas – é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objecto qualquer, uma pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo”.
Ao longo da história, o ser humano procura atribuir um sentido à vida e aos seus tempos cíclicos, sentindo-se atraído pelo transcendental. A esperança de encontro com o transcendente após a morte redime o homem do sentimento de efemeridade.
2. A presença do sagrado na escrita literária contemporânea pode revestir-se de uma enorme variedade de registos – adesão total e manifesta; presença débil ou disfarçada; havendo também lugar para a tentativa de esvaziamento ou mesmo de negação.
Genericamente, nas várias tendências enunciadas, predomina uma atitude de inquietação; muitas vezes sobrevém uma postura inquiridora e dubitativa; enfim quase sempre se desenrola um diálogo (implícito ou visível) com uma riquíssima tradição aberta ao sagrado.
Por mais generalizadas que sejam as ofensivas de um positivismo estreito, ou do laicismo e da anti-religiosidade militantes de hoje, é quase impossível a erosão de séculos de história: um imenso legado artístico-cultural sempre aproximou o homem do transcendente; e confrontou-o reiteradamente com o mistério da vida e da morte. É através dessa linguagem artística, grávida de sentidos, que o homem se pensou; se relacionou com o sagrado e projectou outras dimensões; enfim, se redimiu do agudo sentimento de efemeridade.
Por tudo isto, a leitura do sagrado nos textos literários – de ontem ou de hoje – mostra-se um caminho hermenêutico bastante fecundo, revelador de temáticas centrais e riquezas semânticas insuspeitadas. Sobretudo quando a leitura crítica se detém na interpretação de determinadas ocorrências simbólicas, metafóricas e imagéticas. É justamente essa linguagem mais densa e carregada de significados que estabelece a ponte com a dimensão do sagrado.
| Cândido Oliveira Martins







