segunda-feira, 9 de junho de 2008

O fundamento da pessoa




“A teologia defende a pessoalidade de Deus, em primeiro lugar, porque Deus não pode ser – por amor do ser humano, a quem interpela pessoalmente – menos do que pessoal, em sentido analógico, caso tenha algo a dizer aos humanos – pessoal, mas não uma pessoa, ou mesmo personalidade, no sentido unívoco em que isso se aplica ao ser humano. Um Deus que fosse simplesmente um «princípio» impessoal, ou apenas uma «essência», não poderia chamar o ser humano ao ser, pela palavra (Criação) ou vir ao seu encontro na palavra (história da salvação), enquanto precisamente ser humano e ser de liberdade. Em segundo lugar, a personalidade de Deus deve ser pensada, por amor de si mesmo, de tal modo que Deus não perca a sua divindade, quando se compromete, como criador e como participante no jogo da história. Isso significa: a criação do mundo não é um processo necessário, que se segue da «natureza» de Deus, ou da sua essência, pois Ele está, de modo livre, perante a sua criação e a respectiva história”.

P. Hofmann, Die Bibel ist die erste Theologie, Paderborn, 2006, 362-363.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Sarça ardente, António Vieira (IV)

Nicolas Froment, Sarça ardente, 1476

Vê Moisés no deserto uma sarça, que ardia em fogo e não se queimava. Pasma da visão, parte a vê-la de mais perto; e quanto mais caminha, e vê, tanto mais pasma. Ser fogo, o que estou vendo, não há dúvida: aquela luz intensa, aquelas chamas vivas, aquelas lavaredas ardentes, de fogo são; mas a sarça não se consome; a sarça está inteira; a sarça está verde. Que maravilha é esta? Grande maravilha para quem não conhecia o fogo, nem a sarça; mas para quem sabe que o fogo era Deus, e a sarça Maria, ainda era maravilha maior, ou não era maravilha. O fogo era Deus, que vinha libertar o povo. Assim o diz o Texto. A sarça era Maria, em quem Deus tomou forma visível, quando veio libertar o género humano. Assim o diz S. Jerónimo, Santo Atanásio, S. Basílio, e a mesma Igreja. Como o fogo estava na sarça como Deus estava em Maria, já o seu fogo não tinha actividades para queimar; luzir sim, resplandecer sim, que são efeitos de luz; mas queimar, abrasar, consumir, que são efeitos de fogo, isso não, que já lhos tirou Maria. Já Maria despontou os raios ao Sol; por isso luzem, e não ferem; ardem, e não queimam; resplandecem, e não abrasam. Parece-vos maravilha, que assim abrandasse aquela benigna Luz os rigores do Sol? Parece-vos grande maravilha que assim lhe apagasse o fogoso e abrasado, e lhe deixasse só o resplandecente e luminoso? Pois ainda fez mais.
Não só abrandou, ou apagou no Sol os rigores do do fogo, senão também os rigores da luz. O Sol não é só rigoroso, e terrível no fogo com que abrasa, senão também na luz com que alumia. Em aparecendo no Oriente os primeiros raios do Sol, como se foram archeiros da guarda do grande Rei dos Planetas, vereis como vão diante fazendo praça, e como em um momento alimpam o campo do Céu, sem guardar respeito, nem perdoar a cousa luzente. O vulgo de Estrelas que andavam como espalhadas na confiança da noite, as pequeninas somem-se, as maiores retiram-se, todas fogem, todas se escondem, sem haver nenhuma (por maior luzeiro que seja) que se atreva a parar, nem a aparecer diante do Sol descoberto. Vedes esta majestade severa? Vedes este rigor da luz do Sol, com que nada lhe pára, com que tudo escurece em sua presença? Ora deixai-o vir ao signo de Virgem, e vereis como essa mesma luz fica benigna e tratável.
António Vieira, Sermão do Nascimento da Virgem Maria

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A loja de Deus

Nuno Sampaio, olhares.com


Entrei e vi um anjo no balcão. Maravilhado, eu lhe disse:
"Santo Anjo do Senhor, o que vendes?
Ele me respondeu: "Todos os dons de Deus".
Perguntei: "Custa muito?"
Respondeu-me: "Não, tudo é de graça".
Contemplei a loja e vi jarros com compaixão, vidros com fé,
Pacotes com esperança, caixinhas com salvação,
Potes com sabedoria...
Tomei coragem e pedi:
"Por favor, Santo Anjo, quero muito amor,
Todo o perdão, um vidro de fé, bastante felicidade
E salvação eterna para mim e minha família também.
Então o Anjo do Senhor preparou um pequeno embrulho,
Tão pequeno que cabia na palma da minha mão.
Maravilhado mais uma vez, eu lhe disse:
"É possível tudo estar aqui?"
O Anjo me respondeu sorrindo:
"Meu querido irmão, na Loja de Deus não vendemos frutos.
Apenas sementes".

SEMENTE
“Sempre me perguntei: por que Jesus gostava tanto de usar o exemplo da semente para oferecer os seus ensinamentos? É o semeador que sai para semear. É o grão de mostarda que, embora muito pequeno, se transformará numa árvore. É o grão de trigo que, caído na terra, deve morrer para produzir frutos.Até a fé, suficiente para arrancar uma amoreira e plantá-la no mar, é comparada, novamente, à pequena semente de mostarda. O que tem de tão extraordinário em uma semente? Esconde um segredo: o segredo da vida. Não é algo que vem pronto, nas suas dimensões e nas suas cores. Não é um produto acabado que se pode, ou não, comprar.Uma semente é um projecto. Um projecto escondido. Precisa que alguém acredite, confie, tome cuidado, gaste tempo e carinho. Pode dar muito fruto, como pode não dar em nada. Mas a semente, plantada em terra boa, com a chuva no tempo certo, não vai falhar.Tenho a impressão de que, hoje, estejamos correndo o perigo de esquecer o segredo da semente. Temos pressa demais.Por que cozinhar, se já vendem comida pronta? Por que esperar se, correndo, chego antes? Por que perder tempo para pensar, se já me oferecem a resposta antes mesmo que eu formule a pergunta? É verdade que algumas coisas facilitam o nosso dia-a-dia, porém muitas vezes perdemos a poesia do crescimento.Custa e traz angústia a lenta aprendizagem. Todos precisamos de tempo para aprender. Se a semente desenvolve e ganha em solidez, nós, os humanos, ganhamos em segurança, auto-estima, carácter. É verdadeiramente nosso, somente aquilo que aprendemos aos poucos, caindo e levantando, errando e acertando, como quando começamos a andar e a falar.A pressa nunca foi boa conselheira e nem boa professora. Hoje, por culpa de nós adultos e da sociedade stressada que criamos, as crianças querem queimar etapas. Vestem-se como jovens e acham que podem agir como adultos. Poderiam curtir mais a infância. No entanto, nós, adultos, não deixamos. Nós temos pressa.O segredo da semente está, portanto, no facto de ser um projecto que está sendo construído. Aos poucos, vai se formando, tomando corpo, está sempre em movimento. Um pequeno passo de cada vez, com mais uma meta à sua frente para alcançar.Também projectos não faltam na nossa sociedade. Mas, às vezes, chegam grandes demais. Começam de cima para baixo. Querem que as pessoas corram, quando mal sabem engatinhar.Conheço um homem que vendia espetinhos na rua. Demorou anos, e hoje é dono de bom um restaurante. Outro fez um grande empréstimo no banco e abriu logo uma pizzaria. Rapidamente teve que vender até a casa para pagar a dívida. Quis logo a árvore, em vez de plantar uma semente e acreditar que ia crescer. Não deu certo.Por isso Jesus ensinou que o seu Reino é como uma semente. É bom, é necessário, que comece pequeno. Porque começa lá, no fundo do coração de cada um. Começa com um bom sentimento, depois com uma certeza. A certeza se transforma em decisão; e a decisão muda a nossa vida. A decisão é um exemplo de coragem e o exemplo é sempre contagiante.Assim, o Reino cresce e ninguém consegue contê-lo. Não vem para dominar, mas para libertar. Não cresce para sufocar. Espalha os seus ramos para acolher a todos com a sua sombra, como uma árvore frondosa, cheia de folhas, flores e frutos, tudo no tempo certo. Quem teria pensado? A semente era tão pequena! A fé não precisa ser grande, basta que seja verdadeira.”





D. Pedro José Conti Bispo de Macapá
Fonte: CNBB

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O axioma de Amos Oz!

“Faz a paz e não o amor”. É este o axioma proposto pelo conhecido escritor Amos Oz, no seu livro Contra o Fanatismo1, para que se estabeleça uma verdadeira comunidade humana. Esta aparente inofensiva expressão coloca-nos perante dois conceitos chave relativos ao comportamento do ser humano na sua relacionalidade com a alteridade.
Esta posição entendida no seu todo coloca uma série de interrogações que cada um poderá responder interiormente. Será possível a paz sem a lógica do amor? Não será ela uma atitude convertida do amor? Como estar em paz sem amar? Será a paz algo abstracto e conceptual ou será feita com e para pessoas que em si mesmas já são manifestação do amor? Ao ceder aos nossos clichés sociais habituámo-nos a compartimentar tudo em sistemas estanques e isolados que não raramente resultaram e resultam em sistemas totalitários e totalizantes. Será que basta haver paz mesmo quando ser humano entre si não se ame? O conceito de amor é bastante amplo e complexo porque implica sempre um jogo de relações. Amar não é estar subvertido ao outro. O amor diz a relação com a alteridade e permite que o outro se torne transcendente a todos particularismos manipuladores. Amar é estar já em situação de paz. Sem amor, como é que se pode realizar a paz sem sentir ódio pelo outro (uma vez que não se ama)? Pior de tudo é a indiferença, porque uma relação feita sem olhares e sem amor, ainda que incómoda, perturbante, leva ao caos, a uma vida excessivamente melodramática.
Perante isto, não seria melhor dizer ‘faz a paz no amor’, ainda que se tenha de viver muitas vezes sob o signo do paradoxo? Aliás, não será o paradoxo aquilo que dá sentido à nossa existência? Amar significa estar em paz, em diálogo, em relação edificante, e paz significa promover o amor em situações humanamente incompreensíveis. Mas de que paz se trata? Meramente humana? Se sim, ela é tão débil quanto é a força e a vontade humanas. O amor é, por isso, aquela possibilidade que nos faz transcender a nós mesmos, que está para além das nossas vontades e desejos, é possibilidade de afrontar e confrontar dignamente determinados contextos (é o que algumas vezes nos faz fugir indignamente da terra para subir à dignidade do alto dos céus!). A partir da lógica do amor lutamos pelo outro contra todas as formas de injustiça e rejeição (de uma pátria, de uma terra, de uma dignidade, de um nome, de uma identidade…), sacrificamo-nos pelo outro, morremos pelo outro… e será isto um “amor altruisticamente fanático”? O que fazemos pelo amor do outro fazemo-lo também por amor a nós mesmos porque acreditamos que isso é verdade e possível. O amor é um pleroma concreto onde a diferença de cada um e de todos é respeitada numa diferença substancial e pluricultural.
A paz não se faz apenas com ausência de guerra; faz-se por aquilo que se pode ir construindo, pelo que se pode “salvar salvando”, e isso dá-se na sublimidade do amor como acto de entrega profunda acima de todos os interesses e utilitarismos individuais. Um amor que nos interpela face ao rosto do humano comum, que por vezes é sofrimento e que exige sacrifícios, não por cada homem concebido singularmente, mas pelo amor universal que contém cada ser humano na sua particularidade. Assim, o amor torna-se uma interessante luta pela paz. Se esta não for consequência do amor, simplesmente se converte numa guerra silenciosa, de bastidores, de aniquiladores cirúrgicos, de franco-atiradores, pronta a rebentar ao mínimo impasse dissonante (vejamos a barbárie que assistimos nos confrontos actuais no panorama mundial). Uma paz sem os fundamentos do coração seria gélida, fria e demasiadamente débil, e até desumaizante, porque consagrada a todo o custo, em virtude da morte física do outro.
Com esta proposta de Amos Oz seria o mesmo que dizer: a partir da agora haverá paz para sempre, mas teremos de deixar de nos amar, o importante é a boa vizinhança, ou nas suas próprias palavras “se vier a haver o Estado de Israel e o Estado da Palestina a viverem lado a lado como vizinhos honestos, sem opressão, sem exploração, sem derramamento de sangue, sem terror, sem violência, ficarei satisfeito mesmo que não prevaleça o amor”. O que é que aconteceria caso isto se sucedesse…? Uma revolução silenciosa em que os fracos (universalmente considerados) jamais teriam voz. Seriam aniquilados, não teriam lugar neste mundo… Padeceriam por serem fracos! Este estar em paz não faria sentido, porque ao mínimo abalo ruiria, e então nesse caso seria melhor uma “guerra declarada”, de rostos visíveis. Assim, pelo menos, saberíamos quem era o atirador, daríamos conta que existe mais alguém para além de nós mesmos e que na vida há muita coisa pela qual vale a pena lutar.
O desejo da paz é já um desejo impulsionado pelo amor que une o género humano ao resto da criação. A paz só surge quanto brota do amor profundo que a todos nos une. Mas de que amor falámos? Egoísta, “fanático altruísta”? Certamente que não. É um amor total que com-partilha amores diferentes e é capaz de unir o género humano à grande causa da vida que, ao fim e ao cabo, é a sua própria causa.
Sem amor, ilusão das ilusões, a paz é ilusão!
_______________
1 Amos Oz, Contra o Fanatismo, Asa, 2007,44.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Literatura e Sagrado (2)


1. Desde tempos imemoriais que a literatura e o sagrado surgem intimamente associados. O sagrado e a transcendência transformaram-se mesmo em temas centrais das artes e em particular da literatura como arte da palavra. Entre múltiplas aproximações e resistências, literatura e sagrado são constantes intemporais, que atravessam toda a cultura humana através dos séculos, sendo incompreensíveis uma sem a outra.

Toma-se aqui sagrado na ampla acepção das investigações transdisciplinares de Mircea Eliade e Rudolf Otto, na conhecida oposição sagrado/profano. Neste sentido, a presença sagrado para o homem não é automaticamente identificável com o “religioso”; e ainda menos com a realidade histórica da religião ou religiões institucionalizadas.

2. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer um dado histórico fundamental, em que radica a mais antiga relação de proximidade entre literatura e sagrado: nas diversas e influentes civilizações, os mais remotos textos literários conhecidos, como o “Poema da Criação” babilónica, são textos eminentemente tocados pelo sagrado.

Na sua origem, aliás, a poesia era indissociável do sagrado. Ao longo dos tempos, a palavra literária sempre sentiu ou expressou o apelo íntimo por algo que transcende o próprio homem: “L’homme dépasse infiniment l’homme” (Pascal). Consciente da sua efemeridade, o homem sente em cada tempo a existência de algo que o ultrapassa. Acreditar num transcendente é uma forma de buscar um sentido para a existência.

Esta constatação é talvez mais agudamente sentida nas chamadas “religiões do Livro” (judaísmo, cristianismo, islão), religiões reveladas e históricas onde o Livro ocupa um lugar central. O próprio uso literário enforma muitos dos textos (em sucessivas versões e traduções) foi abrindo caminho a técnicas de leitura e níveis de interpretação que tenham em conta “a letra” e “o espírito”.

3. Estamos a comemorar o IV Centenário do Nascimento do Padre António Vieira (1608-2008), figura absolutamente singular da história, da cultura e da literatura portuguesas. No próximo dia 7 de Junho, sábado, a Faculdade de Filosofia dedica um Colóquio evocativo a esta figura multifacetada de jesuíta e missionário, de diplomata e de político, de visionário e de utópico, de orador e de escritor genial.

Ora, vários escritores contemporâneos – como Fernando Luso Soares, José Saramago, Luísa Costa Gomes, Seomara da Veiga Ferreira, Maria João Martins, Inês Pedrosa, Miguel Real, bem como os brasileiros Ana Miranda ou Moacyr Scliar, entre outros, evocam a figura de Vieira nas suas obras actuais (teatro, romance, poesia), citando abundantemente os seus escritos, realçando a actualidade deste assombroso homem da palavra e da acção. A título de exemplo, num destes romances pode ler-se: “A espiritualidade e a poesia andam de mãos dadas”.

A título de exemplo, fiquemos com uma passagem do romance histórico de Seomara da Veiga Ferreira, em António Vieira, o Fogo e a Rosa [2002], onde a escritora coloca o idoso Vieira a evocar o seu passado diante de Bento de Castro, médico da rainha Cristina da Suécia, nestes termos reflexivos:

A arte é um dom de Deus e o artista, o seu mediador, aquele que cumpre os Seus desígnios pela Sua vontade e para o serviço dos homens. O Criador tudo concebeu, mas deu-nos a liberdade de escolha, essa santa liberdade pela qual tudo merece ser sacrificado. Até a vida. Eu já falei algumas vezes da arte, da arte que pode transformar o informe num ser vivo, criatura de Deus, na arte que molda a pedra bruta para lhe criar o sopro do espírito. Disse-o e escrevi-o no Sermão em que falei da forma e da matéria e dei como exemplo o estatuário...

Andava na minha peregrinação, percorrendo os inóspitos caminhos, suado, sujo, às vezes a veste rota, as botinas esfrangalhadas, topando com desconhecidos animais de um bestiário fabuloso que a Europa nunca viu. Depois, a substituição da liberdade dos trilhos da selva pela meditativa paz dos cubículos, onde cada um se refugia no silêncio da sua alma, só tocado pela palavra também silenciosa, imerso no silêncio profundo de diamante e fogo, de Deus, que reveste as nuas paredes de frases e que faz folhear os livros e embeber de paz a alma dos ascetas. E todo o pensador é um asceta porque é na solidão, no confronto comigo próprio, mas tocado sempre pelo dedo da divindade, que se enforma o seu pensamento, se afeiçoa o seu espírito à Ideia, se eleva a sua mente ao Conhecimento, à Arte, à Perfeição, à nossa peculiar perfeição que, como humanos, apesar das nossas limitações, podemos alcançar e usufruir.

|
Cândido Oliveira Martins

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Olhemos um pouco à nossa volta

Jorge Alfar, olhares.com

1. Atravessamos hoje um mundo complexo, em que é bem notório o espectáculo triste das desigualdades, discriminação de raça, sexo, idade e condição social. Mas impõe-se-nos igualmente o espectáculo da pobreza, da miséria e da fome, ao ponto de um cão do primeiro mundo ter à disposição dezassete vezes mais bens do que uma criança do terceiro mundo! E também o espectáculo do crescimento em flecha da criminalidade organizada, do narcotráfico, redes de prostituição e de pedofilia, comércio ilegal de armas, tráfico de órgãos, etc. E não podemos ignorar o espectáculo do regresso de velhas epidemias e pandemias, como a tuberculose, a varíola e outras doenças que há muito tempo estavam erradicadas. E, como se não bastasse, vemos ainda surgir novas pandemias, como a Sida (AIDS) e a chamada «síndrome respiratória aguda» (SRA), vulgo «pneumonia atípica».

2. Acresce ainda o espectáculo do desrespeito pela natureza, com o aumento incontrolável da poluição, a proliferação de lixeiras de produtos tóxicos, o buraco do ozono sempre a aumentar, o sobreaquecimento do planeta, graves atentados contra os oceanos.

3. Não podemos também deixar de assistir à transformação da natureza do capitalismo, que já quase nada tem a ver com a produção de riqueza através do desenvolvimento da indústria, da agricultura ou do comércio. As grandes fortunas fazem-se hoje, não com base no trabalho e na produção de riqueza, mas com base na especulação bolsista, através da transacção de acções de Bolsa em Bolsa, de Londres para Nova Iorque, de Tóquio para S. Francisco… E fazem-se assim, num só dia, fortunas maiores do que as que qualquer grande industrial pode fazer durante toda uma vida de trabalho honesto numa empresa com milhares de trabalhadores.

4. Neste mundo complexo em que vivemos, também não podemos ainda ignorar que o dinheiro que resulta do narcotráfico, do tráfico da prostituição e da pedofilia, do tráfico de armas e de órgãos, atinge hoje valores da ordem dos 40 % do fluxo de capitais que circulam pelo mundo. Ao ponto de já ninguém conseguir saber bem o que é dinheiro sujo e dinheiro limpo.

5. Em suma, atravessamos hoje um mundo em saldo. Sem instituições credíveis, quer a nível mundial, nacional ou local. Veja-se a própria ONU, a UNESCO, a NATO, mas também a família, a escola, a política, a polícia, os tribunais, a saúde. Sem instituições e sem princípios ou valores. De facto, vivemos num mundo esvaziado de valores, em que dá a impressão que vale tudo e que tudo vale o mesmo, tudo é equivalente. A confusão é total. O que é normal? Ser corrupto ou ser honesto? Ser fiel aos compromissos assumidos, sobretudo na família, ou ter isso como comportamento antiquado? Andar metido na droga, ou fugir dela? Meter cunhas para conseguir facilmente certos objectivos, ou lutar por eles com esforço e determinação? Passar a noite à entrada do posto de saúde para poder ser atendido, ou comparecer à hora de abertura? Que mundo é este, senhores?! Não tarda nada, começaremos a andar de gatas ou de pernas para o ar. E acharemos isso normalíssimo.

6. Num mundo como este, importa que cultivemos a vontade e a inteligência. E que tenhamos a peito a dignidade da pessoa humana, a justiça e a prática do bem, que implicam a aceitação do outro e o respeito pelas suas diferenças, mas também a compaixão, o perdão, a tolerância, a generosidade. Tudo isto modelado ainda pelo mistério que envolve a nossa vida e a nossa morte.

António Couto

sábado, 31 de maio de 2008

António Vieira II

Púlpito onde o Pe. António Vieira pregava, em S. Salvador da Baía
AMOR E ÓDIO

As paixões do coração humano, como as divide e numera Aristóteles, são onze, mas todas elas se reduzem a duas capitais: amor e ódio. E estes dois afectos cegos são os dois pólos em que se resolve o mundo, por isso tão mal governado. Eles são os que pesam os merecimentos, eles os que qualificam as acções, eles os que avaliam as prendas, eles os que repartem as fortunas. Eles são os que enfeitam ou descompõem, eles os que fazem ou aniquilam, eles os que pintam ou despintam os objectos, dando e tirando a seu arbítrio a cor, a figura, a medida e ainda o mesmo ser e substância, sem outra distinção ou juízo que aborrecer e amar.
Se os olhos vêem com amor, o corvo é branco; se com ódio, o cisne é negro; se com amor, o demónio é formoso; se com ódio, o anjo é feio; se com amor, o pigmeu é gigante; se com ódio, o gigante é pigmeu; se com amor, o que não é tem ser; se com ódio, o que tem ser, e é bem que seja, não é nem será jamais. Por isso se vêem, com perpétuo clamor da justiça, os indignos levantados e as dignidades abatidas; os talentos ociosos, e as incapacidades com mando; a ignorância graduada, e a ciência sem honra; a fraqueza com o bastão, e o valor posto a um canto; o vício sobre os altares, e a virtude sem culto; os milagres acusados, e os milagrosos réus. Pode haver maior violência da razão? Pode haver maior escândalo da natureza? Pode haver maior perdição da república? Pois tudo isto é o que faz e desfaz a paixão dos olhos humanos, cegos quando se fecham, e cegos quando se abrem; cegos quando amam, e cegos quando aborrecem; cegos quando aprovam, e cegos quando condenam; cegos quando não vêem, e quando vêem muito mais cegos.
António Vieira

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O miolo das coisas


Estranha sociedade esta, a dos números. Gasta-se o tempo fazendo estudos para serem traduzidos em números, estatísticas para conferir números, previsões para antecipar números…
Mas, como diz Teixeira de Pascoais, a realidade (…) “Foge a todos os cálculos/ e a todos os olhos de vidro/ por mais longe que eles vejam, / quer se trate dum núcleo atómico/perdido no infinitamente pequeno/ou da nebulosa Andrómeda/ a seiscentos mil anos de luz da minha aldeia!

A essência das coisas,
essa verdade oculta na mentira,
é de natureza poética
e não científica.

Aparece ao luar da inspiração
e não à claridade fria da razão.
Esta apenas descobre
um simples jogo de forças
repetido ou modificado lentamente,
gestos insubstanciais,
formas ocas,
a casca dum fruto pribido.

Mas o miolo é do poeta.

Só ele saboreia a vida
até ao mais íntimo
do seu gosto amargoso,
e se embrenha nela
até ao mais profundo
das suas sensações e sentimentos.

É o ser interior a tudo.

Para ele, a realidade
não é um conceito abstracto,
ideia pura, imagem linear;

é uma concepção essencial,
imagem hipostasiada,
possuída em alma e corpo,
nupcialmente,
dramaticamente…”



(Carminda Marques)

domingo, 25 de maio de 2008

A propósito da bênção das pastas e de outras considerações menos indulgentes sobre os universitários


Parecem-me oportunas as palavras de D. Manuel Clemente, bispo do Porto, na bênção das pastas, em 4 de Maio:

«Fala-se hoje de algum desencanto juvenil, em relação à vida social e cívica. Desencanto e indiferença que justamente preocupam altos responsáveis e muitos observadores. Mas eu entrevejo nisso uma dupla reacção, de sinal diverso. Por um lado, é verdade que muitos jovens caem no imediatismo de consumos vários, infelizmente suscitados por más publicidades e péssimos negócios. Mas, por outro lado, tal alheamento referir-se-á ainda mais à inconsistência das práticas pessoais e públicas dalguns mais velhos, que não são de molde a cativar os mais novos. Por outro lado, são muitos os jovens que hoje aderem de alma e coração a iniciativas concretas e válidas de voluntariado e solidariedade, no país e além dele. Mais do que acusar os jovens de alheamento e descaso, devemos ser nós, os adultos, a testemunhar-lhes um real compromisso com a sociedade e o desenvolvimento. A isto, decerto, aderirão. Não desistamos nós da juventude, e ela se tornará em bênção, como Deus a oferece ao mundo em cada geração que chega»

(Carlos Nuno Vaz)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Fé e sentimento estético


Hermann Nitsch

“O cuidado da qualidade espiritual do sensível é produzida nos lugares da experiência daquilo que é importante, não nos tempos destinados ao que é acessório: esta é a tarefa da educação estética que hoje se exige. Porque o decifrar dos sentimentos e das emoções, da sensibilidade e da interioridade tornou-se difícil e complexo. A experiência estética, quando não for reduzida ao elemento puramente lúdico e hedonista que ocupa o tempo livre (mesmo que esse elemento seja enobrecido com a retórica do evento cultural), é o lugar próprio da formação da consciência para a espiritualidade do sensível. Através dela, de facto, os símbolos vitais das emoções, que interpelam quanto à justiça última das coisas, tornam-se objecto de interrogação, de reflexão e de assimilação. Sem a mediação do imaginário e fora de toda a energia activada pelos símbolos do modo como o mundo ressoa em nós, o espírito é cego e mudo, mesmo relativamente às grandes questões do sentido. A interioridade não ganha forma, para o ser humano, nem se torna saber de si, sem a mediação simbólica do sensível… O dualismo da alma e do corpo instaura, em primeira instância, a antropologia do pecado, não a teologia da graça.”

Pierangelo Sequeri, L’estro di Dio, Milano 2000, 12.16.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Casamento Gay


Num momento em que várias individualidades, forças políticas e organizações favoráveis ao chamado “casamento gay” pretendem lançar, ou relançar, a discussão sobre essa tema, parece oportuno conhecer o contributo para o debate trazido por Roque Cabral, professor catedrático da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa, em artigo publicado na revista Brotéria e aqui parcialmente transcrito. (Silva Pereira)




A apologia dos casamentos gay insiste recorrentemente em dois argumentos: a liberdade das pessoas que assim pretendem viver e a igualdade de direitos de todos os cidadãos, igualdade que exclui qualquer discriminação. O significado destes argumentos é fácil de compreender. O que importa verificar é a sua solidez argumentativa.
Para começar, não parece contestável que duas pessoas do mesmo sexo, que pretendem partilhar as suas vidas numa união duradoura, o possam fazer e que o legislador deva ter em conta esse facto. Se há pessoas que querem unir-se assim, por que não respeitar essa vontade? No actual debate nos Estados Unidos, têm sido aplicadas ao nosso tema as palavras da histórica sentença do Supremo Tribunal (12.06.67) que aboliu a proibição de casamentos inter-raciais: "Casar, com quem, de que modo dar expressão à intimidade sexual, e como constituir família - são dos mais básicos direitos individuais”. Por respeito à livre decisão das pessoas, deveria consequentemente acolher-se a vontade de casamento de pessoas do mesmo sexo. Embora a "orientação sexual" homossexual seja, segundo os especialistas, quantitativamente minoritária, numerosos são os homens e as mulheres que se sentem afectivamente atraídos por pessoas do mesmo sexo, pelas quais são correspondidos e com as quais desejam partilhar a vida. Se assim o desejam, não serão livres de o realizar? Em nome de quê se pode opor uma negativa a esta vontade? Donde e com que fundamento impor uma tão sensível limitação à liberdade de cada um?
Falando em liberdade, recordo que no debate conciliar que levou à publicação do documento sobre a liberdade religiosa do Vaticano II, foi dito - e aceite pela maioria - que, sendo a liberdade algo tão essencial à pessoa humana e à sua dignidade, quem pretenda introduzir limitações à mesma é que tem o ónus de prova e não quem a afirma. Por outras palavras, tanta liberdade quanto possível, as limitações é que têm de ser demonstradas. Quem esteja de acordo com esta opinião, mas não reconheça direito de cidade aos casamentos homossexuais deverá, logicamente, estar disposto a apresentar razões para essa restrição da liberdade. Sendo este o meu caso, tentarei fundamentar racionalmente a limitação à liberdade dos homossexuais e lésbicas no que diz respeito à legalização das suas uniões sob a forma de casamento.
Não será demais lembrar que é isto que está em jogo: não se trata de negar todo e qualquer direito às uniões homossexuais e lésbicas, mas apenas a sua pretensão a serem consideradas "casamentos". Não só não se negam outros direitos, como parece de elementar justiça que o legislador tenha em conta a realidade constituída pelos pares de pessoas do mesmo sexo que pretendem partilhar vida, bens e outros direitos reconhecidos aos casados.
Mas os grupos de homossexuais e de lésbicas não pretendem apenas isso. Requerem a possibilidade de celebrar casamentos em igualdade de condições com os pares heterossexuais. O que nos leva a considerar mais detidamente este aspecto da questão, o da igualdade, e, na falta desta, o de uma eventual discriminação. Homossexuais e lésbicas pretendem poder ter um casamento igual ao dos casais heterossexuais, exigem um tratamento igual e idêntica designação para todos os casamentos. Invocam o artigo 36.º da Constituição - "todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de igualdade" - e exigem que seja alterada a definição de casamento do artigo 1577.º do Código Civil, segundo o qual "casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições do Código" Aos olhos dos homossexuais e lésbicas, esta alteração constitui um óbvio imperativo da igualdade com que a lei deve tratar todos os cidadãos.
Falando de igualdade, o que é indiscutível imperativo é que receba o mesmo tratamento o que for igual, e diferente tratamento o que for diferente. Esta tão óbvia exigência da justiça parece escapar àqueles que lutam pelo casamento para os pares de pessoas do mesmo sexo. Querem para si o mesmo tratamento, embora a relação que constituem seja profundamente diferente da que existe nos casais heterossexuais. Querem igual tratamento, mas esta sua vontade não torna iguais as situações, que são diferentes - e o legislador fará bem em não as tratar da mesma maneira.
Que as pessoas não sejam discriminadas - com base na religião, sexo, cor da pele, etc. - parece-nos, a quantos vivemos hoje, uma elementar justiça. Longos séculos levou a humanidade a reconhecer essa exigência, com inúmeras lutas e debates pelo meio, e ela está, infelizmente, muito longe de ser universal e plenamente cumprida. Sabemos que esta afirmação universal dos direitos de qualquer ser humano - que se deseja efectivamente reconhecida em toda a terra - não impede que se admitam universalmente imensas diferenças de tratamento, desigualdades que não suscitam protestos porque são obviamente razoáveis e justas. Os casos que poderiam invocar-se não teriam fim, mas o facto é tão conhecido que podemos dispensar-nos de aduzir alguns exemplos confirmativos. Parece pois claro, e é geralmente aceite, que em muitos casos desigualdade não é sinónimo de reprovável discriminação. Tanto assim é que em diversos contextos se fala de "discriminação positiva".
Não se trata de negar o casamento aos homossexuais ou às lésbicas por serem tais - o que, além de inconstitucional seria uma discriminação, inaceitável como todas as discriminações. Do que se trata é de não considerar como casamento a união de pessoas do mesmo sexo. Não se fecha a porta do casamento aos homossexuais e lésbicas, o que não se admite é o casamento homossexual, o casamento de pessoas do mesmo sexo. Porque o "direito de casar" é o direito de aderir a uma instituição com determinadas características - que eles não estão em condições de assegurar.
E é importante sublinhar, como já acima foi dito, que isso não significa não reconhecer a tais uniões nenhuns efeitos jurídicos. Não parece, com efeito, difícil perceber que o ordenamento jurídico pode atribuir muitos dos benefícios de que desfrutam os casados a pessoas do mesmo sexo que pretendem viver juntas: no âmbito da Segurança Social, do Direito do Trabalho, do Direito Fiscal, do Direito Administrativo, da protecção da casa de morada, etc. Mais ainda: tendo em conta a analogia das situações, parece que tal atribuição será justa e, portanto, devida. Na realidade, entre nós a Lei 7/2001, de 11 de Maio, alargou às uniões homossexuais o âmbito de protecção que a Lei 135/99, de 25 de Agosto, conferia às Uniões de Facto. Caberá ao legislador ampliar o reconhecimento jurídico dos pares de homossexuais e lésbicas naquilo que, sendo justo, ainda não esteja atendido pela lei.
Mas deverão esses pares ter exactamente os mesmos direitos que os casais heterossexuais, como parece claramente ser a pretensão do lobby homossexual? Uma vez que só os casais heterossexuais podem ser férteis, contribuindo assim para a propagação da humanidade, não constituirá nenhuma condenável discriminação o facto de o Estado tratar de modo diferente estes casais. Por razões óbvias. Poderá alguém objectar - e já aconteceu - dizendo que as modernas técnicas de procriação medicamente assistida tornam possível que uma das mulheres de um par de lésbicas seja artificialmente fecundada e procrie. Sem dúvida: só que a criança assim gerada não será filha desse par lésbico, mas apenas de uma das mulheres, fecundada pelo esperma de um dador exterior. Mas, insistir-se-á, duas lésbicas ou dois homossexuais podem criar uma família, não obviamente com filhos do par, mas criando para eles um bom ambiente familiar. Não se nega essa possibilidade; nem se nega que essa "família" pode, em alguns casos, criar um ambiente muito mais favorável do que algumas famílias juridicamente reconhecidas. Mas não seria honesto deduzir daí uma preferência geral pelas "famílias" criadas por pares de homossexuais ou lésbicas.
Seja como for, é fora de dúvida que os casais heterossexuais contribuem para o bem da sociedade civil de modo diferente do que o fazem os pares homossexuais e que, por esta razão, não podem os legisladores e governantes, sem grande injustiça, para com esses casais e sem prejuízo para o país - para cujo bem devem legislar -, tratar de igual maneira casais que tão diferentemente contribuem para o bem comum. A igualdade de tratamento de realidades tão profundamente diferentes é que seria uma grave injustiça e manifesta discriminação. Paradoxalmente, o argumento da não discriminação, frequentemente brandido pelos defensores do casamento homossexual, joga precisamente contra a sua pretensão. Paradoxal é também - até certo ponto - esta pretensão, num tempo em que a instituição casamento é acometida por tantos ventos contrários, num tempo em que se acentua o aspecto das relações afectivas, independentemente do estatuto jurídico.

Pretensão a adoptar

Consideração especial merece a pretensão, por parte dos pares homossexuais, a adoptar. O desejo de adoptar é facilmente compreensível. Mas importa ter presente a profunda mudança que o tema da adopção vem introduzir no debate acerca do casamento. É que, neste caso, o que se torna necessário assegurar não é já o que mais convém ao par homossexual, mas sim o que será mais conveniente à criança a adoptar. O bem do adoptando e não a conveniência ou o direito do par adoptante - seja ele, aliás, homossexual ou heterossexual. Ora bem: nos debates acerca da adopção de crianças por pares homossexuais, é frequente invocarem-se uns "estudos americanos" que demonstrariam que as crianças educadas por pares homossexuais não sofriam nada com isso. Nesses estudos, condensados por Charlotte J. Patterson, verificamos o seguinte: os questionários são poucos numerosos; claramente comportamentalistas e funcionalistas; relativos a crianças e não a adolescentes, sendo que estes é que mais são afectados pelos problemas parentais; todas as crianças estudadas nasceram no quadro de um par heterossexual; as respostas são dadas pelos "pais" heterossexuais, e não pelas crianças; a comparação faz-se com crianças de pais divorciados; por último, pormenor muito significativo: 41% destas crianças beneficiaram de acompanhamento especializado. Conclusão: os famosos estudos não reforçam a pretensão adoptante por parte de pares homossexuais, antes pelo contrário. Charlotte J. Patterson, por alguns considerada grande especialista em assuntos de homossexualidade, foi desautorizada por um tribunal da Florida, que não aceitou atender às suas opiniões, por ela se ter recusado a apresentar os dados em que as fundamentava.
Mais: admitir a adopção por parte de um par homossexual seria uma discriminação relativamente aos adoptados - por não ser assegurado a estes o que deveriam normalmente receber do par adoptante heterossexual. Em palavras de Juan López Ibor, presidente da Associação Mundial de Psiquiatria:"Um núcleo familiar com dois pais ou duas mães é claramente prejudicial ao desenvolvimento harmonioso da personalidade e à adaptação social da criança". O par adoptante deve, por isso, ser um casal heterossexual; se o não for, verificar-se-á, para a criança adoptada, uma dificuldade suplementar, a somar à dificuldade que qualquer adopção já representa. É pois a fortiori que a adopção postula um casal heterossexual.
A este respeito, poderia a alguém ocorrer a seguinte objecção: como em cada pessoa há algo de masculino e algo de feminino (animus e anima), a criança adoptada por um par homossexual poderia encontrar nesse par o "paternal" e o "maternal" de um autêntico "casal". Mas a objecção, tendo algo de válido, não o é inteiramente, uma vez que ser pai ou mãe não se reduz a ter características masculinas ou femininas - mesmo que fossem todas, o que não acontece no par homossexual. Aliás, e mais uma vez: o que é importante, quando se trata de adopções, não é saber se as crianças são capazes de se adaptar aos desejos e invenções dos adultos, mas sim quais são as melhores condições para o seu desenvolvimento.
Não se vêem razões válidas para reconhecer aos pares de homossexuais e de lésbicas o mesmo acesso ao estatuto jurídico e idêntica designação que aos casais heterossexuais, menos ainda se com a possibilidade de adopção. Mas os lobbies que lutam por conseguir esses objectivos são muito poderosos. Talvez venham a alcançar entre nós o que já conseguiram noutros países.
Lamentavelmente.

P. Roque Cabral S. J., Brotéria 165 (2007)111-118

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Proposta de vida para a Serenidade - João XXIII




1. Só por hoje, cuidarei de viver este dia, sem querer resolver todos os problemas da minha vida de uma só vez.

2. Só por hoje, porei o máximo cuidado nos meus modos, sendo agradável no trato, não criticando ninguém, não tentando corrigir ou melhorar seja quem for - excepto a mim próprio.

3. Só por hoje, viverei feliz a certeza de ter sido criado para a Felicidade - não apenas no outro mundo mas também neste.

4. Só por hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Só por hoje, dedicarei pelo menos dez minutos do meu tempo a uma boa leitura; tal como é necessário comer para sustentar o corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.

6. Só por hoje, praticarei uma boa acção sem contar a ninguém.

7. Só por hoje, farei algo de que não gosto: se me sentir ofendido, terei o cuidado de fazer com que ninguém o note.

8. Só por hoje, serei firme na minha fé - mesmo se as circunstâncias apontarem o contrário - de que a Divina Providência se ocupa de mim como se só eu existisse no mundo.

9. Só por hoje, não terei medo de nada. Em particular, não terei medo de apreciar tudo o que é belo - e não terei medo de crer na Bondade.

10. Só para hoje, farei um programa concreto. Talvez não o execute perfeitamente mas, em todo caso, vou fazê-lo. E guardar-me-ei de dois males - a pressa e a indecisão.

(Helena Gonçalves)

domingo, 18 de maio de 2008

Maria: um modelo educativo


É com grande entusiasmo que o Seminário Conciliar S. Pedro e S. Paulo (equipa formadora e equipa de Comunicação Social) colaborará no blog o Bom Pastor. Será certamente uma oportunidade para partilharmos neste espaço as nossas reflexões, crítica e pensamentos sobre a teologia, a vida da Igreja, a liturgia, a sociedade, a cultura, livros, música, cinema, entre outros. Para iniciar, e porque estamos no mês de Maria, apresentamos um olhar diferente sobre a figura de Maria, na sua dimensão educativa, a partir de Augusto Cury.

Maria: um modelo educativo


Tem surgido na actualidade uma preocupação crescente com a educação dos mais novos. Procuram-se modelos, pedagogias, debates para resolver casos que começam a ser bem preocupantes nas sociedades modernas. Sintomático disso é o conjunto de manuais e livros que têm saído sobre a educação e a necessidade urgente de mudança de paradigmas. Andamos à procura das melhores formas, ou como diz Augusto Cury “no tempo actual em que a educação mundial, do ensino básico à universidade, está a formar uma massa de jovens que não pensam criticamente nem sabem lidar com os desafios existenciais, estudar a mulher que foi incumbida de educar o Menino Jesus oxigena a nossa inteligência” (A. Cury, Maria, a maior educadora da história, pg.12).
Este autor, psicanalista, pensador e escritor muito conhecido, aborda a educação de uma forma invulgar. No seu livro “Maria, a maior educadora da História”, a temática da educação é analisada a partir de Maria. Trata-se de uma educação feita a partir de uma história concreta, de uma pessoa particular, acima de qualquer suspeita, a não partir de um sistema teórico. A grande crise da educação é que raramente se pensa nas pessoas, partimos sempre de constructos e de sistemas mais ou menos complexos. Facilmente esquecemos os rostos que estão por detrás dos sistemas. Perdemos em certa medida referências, exemplos concretos com os quais nos possamos identificar e moldar estruturalmente.
O autor apresenta dez princípios que Maria usou para educar Jesus. São, sem dúvida, princípios bem humanos a partir dos quais podemos construir a personalidade e a identidade. Mas que princípios são esses que o autor vê em Maria como algo de sublime e único? Nas suas próprias palavras, “se fosse uma mulher frágil, assaltada pelo medo e pelo stress, teria condições de educar o filho de Deus, cuja história foi pautada por frustrações e rejeições? Se fosse insegura e superprotectora, não teria ela afectado o território da emoção do menino? Se amasse o exibicionismo e não a descrição, o seu processo educacional não seria um desastre?” (Ibidem, 12). Pensemos um pouco neles:
1. A história humana de Maria é pautada por contrato de risco, onde soube lidar com as turbulências imprevisíveis e com a novidade que iam surgindo na sua vida. Aceitou ser mãe de Jesus “começou a andar no fio da navalha entre a aceitação e a rejeição, os aplausos e o vexame social” (Ibidem, 15).
2. Maria era rápida a agradecer e corajosa no agir. Isto é, Maria não era “especial porque foi escolhida, ela foi escolhida porque era especial” (Ibidem, 34).
3. Maria usava a intuição e não um manual de instruções para educar o Menino Jesus. “A mãe do menino Jesus via com os olhos do coração…, ela foi escolhida não porque sabia muito, mas porque era uma especialista em aprender” (Ibidem, 43.46). Educar na intuição ajuda a ver muito mais que os simples erros, estimula a ver o invisível, a não sermos servis.
4. Maria educava o seu filho para servir e a sociedade e não para ser servido por ela. “De todos os compromissos sociais de Jesus, o do amor é o mais solene. O seu discurso sobre o amor não tem precedentes na História. Ninguém disse palavras semelhantes. Ele difundiu amplamente: «Amai o próximo como a vós mesmos»” (Ibidem, 66). Este é o maior tesouro que podemos professar: Deus é amor. Uma educação assim seria revolucionária…!
5. Maria tinha uma espiritualidade inteligente, transformava informações em sabedoria. “Maria viveu a Resolução 181 da ONU quase dois milénios antes dessa instituição existir. Tolerância e generosidade eram as suas marcas” (Ibidem, 81).
6. Maria estimulava a protecção da emoção. “Maria teve de sofrer com maturidade para educar com profundidade” (Ibidem, 90).
7. Maria estimulava a ambição interior. “Milhões de pais estão a criar os seus filhos e não a educá-los, para consumir produtos e não ideais para libertar a criatividade, ousadia, para lidar com perdas e frustrações” (Ibidem, 107).
8. Maria vivia e ensina a arte da contemplação da natureza. “Os pais que educam os seus para terem um contacto com a natureza não apenas enriquecem a emoção, como impulsionam a expansão das estruturas cognitivas” (Ibidem, 119).
9. Maria estimulava a inteligência para construir um projecto de vida e a disciplina para executar. “Os projectos não nos tornam heróis, mas dão-nos condições para sobreviver quando não há chão para caminhar e um ombro para nos apoiar (Ibidem, 129).
10. Maria contava a sua história de vida como o melhor presente na educação do seu filho. “O educador de excelência é o que abraça quando todos rejeitam. Educar é transportar-nos para o mundo do outro sem penetrar nas suas entranhas… é caminhar sem ter certeza de onde se vai chegar” (Ibidem 142.15).
Sentimo-nos tão modernos e tão pouco abertos á história, à memória e à herança que ao longo dos séculos fomos recebendo. Buscamos incessantemente novas verdades e ideias e esquecemos que outros já passaram o mesmo por nós. Se os homens acreditassem que a Palavra de Deus tem uma pedagogia realizada e aceite por pessoas concretas (Maria, por exemplo), talvez percebamos que o ser humano tem futuro somente numa pedagogia do amor.

Literatura e Sagrado (1)


1. Depois de ter apelado à necessidade de uma infoética para os media que dominam a actual sociedade globalizada, o Papa Bento XVI pede aos católicos que revalorizem a arte e a literatura: “Que os cristãos valorizem mais a literatura, a arte e os meios de comunicação social, para favorecer uma cultura que defenda e promova os valores da pessoa humana” (intenção do Apostolado da Oração para o mês de Maio).

Durante séculos, a literatura e a arte em geral foram profundamente influenciadas pelo cristianismo. A pintura, a escultura, a música ou a literatura, desempenharam uma nobre e dupla função, estética e pedagógica. Ao mesmo tempo que enriqueciam um inestimável património cultural, também ajudaram cristãos (e não cristãos) a sentirem o mistério envolvente da beleza e o permanente apelo do transcendente.

2. Ora, esta oportuna intenção papal recorda-nos a memorável Carta do Papa João Paulo II aos Artistas (1999), entusiasmando-os e interpelando-os como “construtores geniais de beleza”. A beleza artística é, em certo sentido, uma epifania do mistério e da maravilha da Criação original. E a beleza constitui uma experiência de entusiasmo, de alegria e de contacto com o Absoluto.

A literatura em particular sempre foi uma arte através da qual o homem procura conhecer-se e dar um sentido à sua existência. O mundo tem necessidade da beleza; através da experiência estética o homem para dá expressão à sua natureza e supera o sem sentido e o desespero da existência. Por isso, o Papa João Paulo II recordava a famosa afirmação do escritor russo Dostoievsky: “a beleza salvará o mundo”. E deixava um apelo final: “A beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro”.

3. É verdade que, modernamente, esse multissecular e fecundo diálogo entre a experiência da fé e a criação artística sofreu afastamentos e rupturas consideráveis. Isso não significa, porém, que a arte e a literatura contemporâneas, ao falar do homem e da sua existência, não recorram a temas e questões de fundo religioso. Há divórcios e antagonismos conhecidos; mas também interrogações e diálogos expressivos.

No limiar do terceiro milénio, é justamente sobre este tópico que nos propomos falar periodicamente, norteados por um mote desafiador: continua a literatura contemporânea a problematizar o sagrado? Como é que arte da palavra pensa aquilo que transcende o homem? Será que hoje a literatura está totalmente divorciada da fé cristã e da experiência do sagrado? Aqui fica o convite inicial para uma breve viagem indagadora e ilustrativa. | Cândido Oliveira Martins

sábado, 17 de maio de 2008

Por uma Europa com Anquises, Eneas, Iulo e Cristo

LOO, Carle van, Eneias carregando Anquises (1729)

1. A Europa foi durante muito tempo um conceito vago. Nas suas famosas Histórias, o historiador grego Heródoto (484-425 a.C.) refere que a Europa e a terra dos gregos era o que ficava para cá das fronteiras dos Persas, que consideravam a Ásia como a sua terra.

2. Eneias, o herói virgiliano que, no Livro Segundo da Eneida, parte de Tróia em direcção ao Lácio carregando aos ombros o velho pai Anquises e apertando a mão do seu pequeno filho Iulo, pode constituir o arquétipo literário, universalmente reconhecido, que serve para dar corpo plástico ao tema: «Os fundamentos de uma Europa em construção».

3. Com a formação dos Estados Helénicos e do Império Romano construiu-se um continente, que veio mais tarde a ser a Europa, mas com fronteiras muito diferentes. Começou por integrar as terras à volta do Mediterrâneo, que se sentiam unidas por laços culturais, comunicações e trocas comerciais, idêntico sistema político. Em termos religiosos, foi o Cristianismo que desde cedo veio dar uma maior consistência a esta bacia do Mediterrâneo.

4. Todavia, com a marcha triunfal do Islão no séc. VII e princípios do séc. VIII, o Mediterrâneo foi cortado ao meio, de tal modo que aquilo que até aí era um continente, fica então dividido em três: Ásia, África e Europa. Por volta do ano 700, este espaço cultural e religioso perde definitivamente a zona meridional do Mediterrâneo, mas estende-se para Norte, incluindo as Gálias, a Bretanha e a Germânia, até à Escandinávia. E em finais do séc. VIII, princípios do IX, com Carlos Magno (742-814), para alguns historiadores o verdadeiro fundador da Europa, consolida-se esta nova Europa, herdeira cultural do antigo Império Romano, que agora se vê como que renascido e fortemente impregnado pelo Cristianismo. Carlos Magno foi coroado em Roma, no Natal de 800, pelo Papa Leão III.

5. Entretanto, com o fim do Império Carolíngio, esta ideia de Europa desvanece-se, para voltar a aparecer de novo no início dos tempos modernos, em 1493, por causa do perigo turco. Mas só no séc. XVIII se afirmará de forma universal.

6. Se o Império Romano teve no Ocidente uma história atribulada, no Oriente, com centro em Constantinopla, resistiu até ao séc. XV, irradiando o lume Cristão pelo mundo eslavo. Quando, em 1493, Constantinopla é tomada pelos turcos, a herança bizantina transfere-se para Moscovo, deslocando-se então as fronteiras da Europa para Norte e para Oriente, até aos Urais. Mas enquanto a Oriente a Europa se expande para a Ásia, a Ocidente expande-se para fora das suas fronteiras geográficas e chega ao Novo Mundo, do outro lado do Atlântico, que então recebe o nome de América. Esta é também a altura em que a própria Europa se divide em duas metades: uma latino-católica, e outra germânico-protestante.

7. O espaço Europeu foi, no decurso do século XX, sacudido por duas guerras. Após a devastação da Segunda Guerra Mundial, os pais da União Europeia – Adenauer, Schumann, De Gasperi – vêem com clareza que esta nova Europa tem de procurar os seus fundamentos na herança Cristã que a foi moldando ao longo dos séculos. Todavia, com o tempo, foram os aspectos económicos que foram privilegiados, esquecendo-se cada vez mais os fundamentos espirituais. Pouco a pouco eclipsaram-se os valores cristãos, desapareceu o sagrado, a família entrou em declínio, hipotecou-se o futuro por falta de nascimentos.

8. Ensina a demografia que, para a simples manutenção da população de um determinado território, é requerida uma média de nascimentos de 2,1 filhos por mulher. Ora, neste começo do século XXI, Portugal decresce à média de 1,3 filhos por mulher, a Espanha à média de 1,1, a Itália e a Alemanha à média de 1,3, a França à média de 1,7. E é sabido que estes índices, sobretudo na França, Itália e Alemanha ainda se ficam a dever muito à presença árabe e africana. E os demógrafos vão avisando que, se nada for alterado, no final deste século XXI, já não haverá Europa, mas Eurábia ou Eurásia.

9. Assistimos hoje a uma Europa velha, doente, esquecida e triste, que já não gosta de si mesma nem da sua própria história, que já não luta nem sonha, mas que ainda pensa que se pode voltar a reunir à volta de uma lareira sem lume, de uma mesa sem pão ou de uma Constituição sem conteúdos, inspirada, dizem, em «heranças culturais, religiosas e humanistas» mais ou menos virtuais, de que ninguém diz nem sabe nem quer saber o nome. Mas eu digo que é cada vez mais uma Europa sem Cristo, sem Eneias e sem Iulo. E só com Anquises não vamos longe.

António Couto

terça-feira, 13 de maio de 2008

programa

[Georges Rouault – Cristo e os discípulos]


Se apenas uma coisa pudesse aqui deixar escrito sobre o que julgo que, de facto, é necessário, isso seria: importa que, como os pagãos afirmavam sobre os primeiros cristãos, de novo, se possa, hoje, dizer: “Vede como eles se amam”. Cinco palavras, um vasto programa.
[EJML]

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Etty Hillesum, Diário


Oração de Domingo de manhã (12 de Julho de 1942)



Vou prometer-te uma coisa, Deus, só uma ninharia: não irei sobrecarregar o dia de hoje com igual número de preocupações em relação ao futuro, mas isso custa um certo exercício. Cada dia já tem a sua conta. Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, nós é que temos de te ajudar, e, ajudanto-te, ajudamo-nos a nós próprios. E este é a única coisa que podemos preservar nestes tempos, e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus. E talvez possamos ajudar a pôr-te a descoberto nos corações atormentados de outros...

Do Diário de Hetty Hilesum (1941-1943) traduzido para português e editado pela editora Assírio e Alvim, na colecção "Teofanias".
Dela diz Tolentino Mendonça, no prefácio desta tradução: "A 9 de Março de 1941, quando Etty Hillesum começou a escrever, no primeiro dos oito cadernos de papel quadriculado, o texto que viria a ser o seu Diário, estava-se longe de pensar que começava aí uma das aventuras literárias e espirituais mais significativas do século. Ela tinha vinte e sete anos de idade e morreria sem ter feito trinta".



(Luís Marinho)

domingo, 11 de maio de 2008

Esperança


Assumo a minha predilecção pela poesia. Saboreei - e continuo a saborear - este delicioso poema de Miguel Torga com tamanho gosto que não resisto a partilhá-lo. É bom sentir a nossa alma impregnada da força de uma esperança assim. Não há inércia que lhe resista, nem "combate" que não valha a pena! (Carminda Marques)

Esperança
quero que sejas
a última palavra
da minha boca.
A mortalha de sol
que me cubra e resuma.
Mas como à despedida só há bruma
no entendimento,
e o próprio alento
atraiçoa a vontade,
grito agora o teu nome aos quatro ventos.
Juro-te, enquanto posso, lealdade
por toda a vida e em todos os momentos.

Miguel Torga

sábado, 10 de maio de 2008

Anunciar e testemunhar a alegria


«O sorriso custa menos que a electricidade; e dá mais luz» -Arturo Merayo


Na véspera de Pentecostes e depois da 42ª Jornada das Comunicações Sociais, achamos oportunas estas palavras de Olegário Cardedal em «ABC» de 3 de Abril: «Os humanos não nos sentimos consolados ou fortalecidos pelas demonstrações, que apenas geram claridade, mas não fortaleza de alma. Ajuda-nos mais a exortação que a demonstração; a esperança que a evidência; as palavras que nos abrem um futuro com largueza de horizontes que as que nos mostram o evidente.…Nós aderimos, não a quem nos vence, humilhando-nos, mas a quem nos convence como pessoas; seguimos quem nos oferece confiança pessoal; imitamos quem nos parece admirável e que, com gratuidade e humildade, nos leva a pensar, a esperar e a amar.»
Bento XVI, na ordenação de 29 sacerdotes, no dia 27 de Abril, perguntava: «Que é que pode ser maior, mais entusiasmante, do que cooperar na difusão da Palavra de vida no mundo e comunicar a água viva do Espírito Santo? Anunciar e testemunhar a alegria é o núcleo central da vossa missão» . Acrescentou ainda: «Para serdes colaboradores da alegria dos outros, num mundo que, com frequência, é triste e negativo, é necessário que o fogo do Evangelho arda dentro de vós e que more em vós a alegria do Senhor. É vossa missão serdes mensageiros e multiplicadores desta alegria a todos, especialmente aos que andam tristes e estão decepcionados». Carlos Nuno Vaz

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ainda sobre o “comunicar com eficácia no séc. XXI”


Comecei por referenciar brevemente a “minha identidade”. Penso que (tenho a certeza!) nenhuma pessoa pode dizer que se conhece totalmente. Ainda existe em nós muitos «Eu’s desconhecidos» ou até mesmo «Eu’s cegos»!

Um dos livros que nos últimos anos tem contribuído para o meu viver e agir, tal como a muitos jovens estudantes do secundário a quem lhes tento passar a mensagem, é: «Saber lidar com as pessoas!», de António Estanqueiro, da Editorial Presença (pode ser consultado em http://www.webboom.pt/ficha.asp?id=37168).

A vida do sacerdote é uma contínua relação com os outros que, só é possível, num conhecimento de si. Sabemos da importância disso! Contudo, nem sempre conseguimos lidar da melhor forma perante os problemas complexos que o dia-a-dia nos impõe. Como auxílio a esta aventureira missão proponho o recordar de ideias e conselhos práticos que o autor nos indica, para que o estar com os outros seja uma verdadeira “obra de arte”. (Francisco Marcelino Esteves)