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sexta-feira, 9 de maio de 2008

Maio e amor de mãe

Alfredo Cunha, olhares.com


1. No dizer do n.º 6 da Constituição Dogmática A Revelação Divina, do Concílio Vaticano II, a Revelação de Deus ao homem não consiste, da parte de Deus, numa coisa que ele entrega, num ditado que dita, numa lição que dá; nem, da parte do homem, numa coisa que recebe, num ditado que escreve, numa lição que aprende. Muito mais do que isso, a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.

2. Nesse sentido, e segundo a mesma Constituição Dogmática, n.º 5, a resposta correcta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, não pode consistir, antes de mais, em aprender o que quer que seja, mas em acolher este Deus que a ele se entrega, e em entregar-se, por sua vez, livremente a Deus. E esta atitude de entrega pessoal, total, psicobiológica, do homem a Deus, que já antes se tinha entregado ao homem, chama-se Fé.

3. Fé ou fidelidade diz-se em hebraico emunah. Emunah deriva do verbo aman, cujo significado primeiro é segurar, firmar, mas também significa fiar-se, confiar, ser fiel. É, de resto, fácil entender que a confiança ou a fidelidade entre amigos, namorados ou esposos, e de nós mesmos uns com os outros, gera segurança e firmeza, enquanto que a desconfiança gera insegurança. Andamos mais seguros quando confiamos uns nos outros. Quando desconfiamos, instala-se a insegurança.

4. Indo um pouco mais fundo, podemos ainda verificar que o verbo aman pode assentar numa etimologia tipicamente maternal: pode derivar de omen, que significa mãe ou ama, e de amûn, que significa bebé. É sabido que o bebé se agarra [= segura-se] com todas as suas forças à sua mãe, sendo o colo da mãe o lugar mais seguro do mundo para o bebé. E o mesmo se passa do lado da mãe, que por nada deste mundo abandona o seu bebé.

5. Significativamente foi a esta relação pessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, traduzida em confiança e segurança e felicidade, que a Bíblia foi buscar o termo para dizer fé. Isto é, a relação feliz, segura e de radical confiança que nós vemos existir entre a mãe e o seu bebé é, para a Bíblia, a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus. Esta relação seguríssima chama-se fé.

6. Eis um belíssimo solilóquio em que Deus se expressa com traços maternos e paternos, mais maternos que paternos: «Fui eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos eu os atraía./ Com laços de amor,/ eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Oseias 11,3-4).

7. Até Deus se revê no amor de mãe. Maio pode ser mais belo, se os nossos gestos forem um pouco mais maternos.

António Couto

quarta-feira, 7 de maio de 2008


Julgo oportuno, ao iniciar o meu contributo neste espaço, apresentar o caminho que penso percorrer, esperando, desta forma, corresponder aos objectivos deste blog. A minha participação será o reflexo das minhas leituras em várias áreas de interesse pessoal e, sobretudo, pastoral. Tenho centrado a minha atenção nesta área da teologia pastoral. Por isso, espero aqui apresentar breves reflexões, textos, bibliografia que possam motivar-nos para a reflexão e o diálogo: o que vem ao virar da esquina? que novos caminhos se apresentam? que propostas têm surgido? Apesar de algum discurso insistente sobre a «crise», vivemos tempos de esperança. Precisamos descobrir aquilo que de novo e de inédito Deus continua a realizar no mundo de hoje. [Sérgio Torres]


Começo por um livro que tem hoje a sua apresentação. «A Leitura Infinita», de José Tolentino Mendonça.

«Cipriano (200-258) dizia: “Se, na oração, falamos com Deus, na leitura da Bíblia Deus fala connosco.” Jerónimo (347-420), escrevendo a um discípulo recomendava: “Não separes nunca a tua mão do Livro, nem distancies dele os teus olhos.” Cassiodoro (490-583) referia-se à farmácia da lectio: “Como um campo fecundo produz ervas odorosas, úteis para a nossa saúde, assim a lectio divina oferece sempre cura para a alma ferida.” E é ainda a imagem campestre que serve a João Damasceno (675-750): “Batamos à porta desse belíssimo jardim das Escrituras.” Poderíamos multiplicar por mil os aforismos deste tipo, que mostram como a tradição cristã se pensou, desde o princípio, como uma prática de leitura. Uma infinita leitura.

O presente volume reúne textos de teologia e exegese bíblicas. A maioria deles conheceu publicação em revistas desse âmbito ou circulou em edições muito restritas, e foi agora revisto a pensar neste livro. Agradeço às pessoas e entidades que primeiro os acolheram. E agradeço aos leitores que os acolhem agora.» [José Tolentino Mendonça]